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Terra Plana: respostas ao jornal Zero Hora

Olá, professor Lang. Tudo bem?

Queremos publicar, na Zero Hora, um material explicando cientificamente por que os terraplanistas estão errados – eles têm ganho muito notoriedade, e uma pesquisa recente apontou que correspondem a 7% dos brasileiros, então achamos importante desautorizá-los e estamos lhe encaminhando algumas das afirmações que são feitas pelos terraplanistas, na expectativa de que o senhor tenha disponibilidade de explicar porque elas não fazem sentido cientificamente.

1) Os sentidos.  Os terraplanistas dizem que nossos sentidos indicam que Terra é plana. Ou seja, o mundo nos parece plano, logo deve ser plano. Mm Por isso, para eles, o ônus da prova recai sobre quem defende uma teoria diferente, ou seja, quem afirma que a Terra é redonda.
2) O disco. A Terra, para os terraplanistas, é como o logotipo da ONU, um disco redondo e achatado de dimensões indefinidas. O Polo Norte está no centro desse disco. A borda toda é formada por gelo: seria a Antártica. O que entendemos como circunavegação da Terra, segundo essa teoria, é fazer um círculo ao redor do Polo Norte.
3) Linha do horizonte. Os defensores da Terra plana dizem que não vemos a curvatura do horizonte, mesmo que estejamos em um avião. Se o planeta fosse esférico, sustentam, veríamos essa curvatura.
4) Nível da água. Corpos de água, como rios ou lagos, segundo os terraplanistas, estão nivelados. Deveriam ter uma curvatura se a Terra fosse uma esfera.
5) Fotos feitas do espaço. Terraplanistas duvidam de evidência fotográfica, porque consideram que é fácil manipular imagens. Também afirmam que as fotos existentes apresentam inconsistências. Para eles, a exploração espacial nunca aconteceu.  É só uma conspiração.
6) Depoimentos de astronautas. Segundo a Sociedade da Terra Plana, os astronautas que foram ao espaço e disseram ter visto que a Terra é redonda podem ter sido subornados ou obrigados a dizer isso. Outra hipótese que levantam é que os astronautas tenham sido iludidos para acreditar na esfericidade.
7) O sol e a lua. O sol e a lua são pequenas esferas situadas a uns poucos milhares de quilômetros da Terra. Eles movem-se em círculos ao redor do Polo Norte. Quando o sol está sobre determinada parte do disco que forma a Terra, é dia ali. Quando não está, é noite. O sol pode fazer o círculo mais perto do Polo Norte ou mais perto da borda de gelo, o que explicaria as diferentes estações do ano.

 

Respondido por: Prof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/

As respostas a cada quesito seguem abaixo.

1) Os sentidos. Os terraplanistas dizem que nossos sentidos indicam que Terra é plana. Ou seja, o mundo nos parece plano, logo deve ser plano. Por isso, para eles, o ônus da prova recai sobre quem defende uma teoria diferente, ou seja, quem afirma que a Terra é redonda.

A sabedoria popular nos ensina que “nem tudo que parece ser, é de fato”. Este empirismo ingênuo dos terraplanistas (ou terra-chatos como prefiro designá-los) levaria a tornar uma irrealidade, por exemplo, as ondas de rádio ou as bactérias pois não temos percepção direta das mesmas.  A esfericidade da Terra é condição sine qua non para o sucesso de muitas tecnologias (citemos uma bem atual, o GPS) que os terraplanistas usam sem questionamento. Para dar mais um exemplo, os terraplanistas utilizam o Google Earth para realizarem medidas de distâncias; entretanto a confiabilidade de tais mensurações somente estaria garantida (e está de fato!) se a Terra fosse esférica.

Finalmente os terraplanistas são inconsistentes no seu empirismo ingênuo já que creem na existência de um domo cobrindo a Terra Plana, domo esse de que não se tem qualquer evidência dos sentidos. Ou alguém já fez uma selfie junto ao domo? 😊

2) O disco. A Terra, para os terraplanistas, é como o logotipo da ONU, um disco redondo e achatado de dimensões indefinidas. O Polo Norte está no centro desse disco. A borda toda é formada por gelo: seria a Antártica. O que entendemos como circum-navegação da Terra, segundo essa teoria, é fazer um círculo ao redor do Polo Norte.

O logotipo da ONU é uma projeção azimutal do globo que não incluiu a Antártica. Para quem não sabe o que é uma projeção azimutal do globo, basta uma busca na internet.

Se a mitologia sobre a Terra Plana tivesse realidade, também seria possível uma circum-navegação. Entretanto quanto mais ao sul se tentasse a circum-navegação, mais extenso seria o caminho pois ele estaria mais próximo da suposta borda do mundo.  Os terraplanistas em geral aceitam que a circunferência do equador é cerca de 40 mil km (alguns acham que é cerca de 60 mil km) e disto decorre que a circum-navegação da Antártica se estenderia por aproximadamente de 80 mil km (ou 120 mil km).

O navegador brasileiro Amyr Klink cumpriu em 1998 seu desiderato de fazer a circum-navegação mais curta possível, bordejando a Antártica, e efetivamente a cumpriu em 88 dias num trajeto com extensão de 26 mil quilômetros. Portanto, mesmo sem ter tal pretensão, refutou a Terra Plana.

3) Linha do horizonte. Os defensores da Terra plana dizem que não vemos a curvatura do horizonte, mesmo que estejamos em um avião. Se o planeta fosse esférico, sustentam, veríamos essa curvatura.

A curvatura da Terra está evidente em variadas formas, a começar pela ocultação da parte inferior de navios ou ilhas distantes, ainda parcialmente visíveis em suas partes superiores.

Quem estiver na praia de Tramandaí facilmente observará tal efeito de ocultação nos petroleiros que se aproximam das boias da Petrobras.  E quando uma pessoa aqui em Tramandaí, postado junto ao mar, observar o petroleiro estacionado na boia, verá a linha do horizonte coincidindo com a parte inferior visível do navio acima da água. Ao subir em alguma duna, retomando a observação, agora de alguns metros acima do nível do mar, verificará facilmente que o horizonte recuou para trás do petroleiro.

Esta singela observação do recuo do horizonte conforme cresce a elevação do observador, é uma contundente evidência da esfericidade da Terra. Em uma mítica Terra Plana a distância ao horizonte não seria afetada pela elevação do observador.  Se a Terra fosse plana não haveria necessidade de torres de atalaia elevadas e até encarapitadas no cimo das elevações costeiras ou no topo do mastro de algum navio. Se a observação acontecesse um pouco acima das águas, poderíamos observar até o fim do mundo. 😉

Aqui no litoral gaúcho, por não existirem acidentes geográficos como enseadas, baías e morros à beira mar, é também fácil verificar a curvatura da Terra no sentido paralelo à linha da costa. Por exemplo, ninguém consegue enxergar de cima da plataforma de pesca de Tramandaí, situado portanto a alguns metros acima do nível do mar, mesmo em um dia de alta visibilidade (quando a visibilidade é de dezenas de quilômetros), a plataforma de pesca de Cidreira, 20 km ao sul. Com ou sem binóculo. Em uma mítica Terra Plana tal seria possível, mas na Terra real a impossibilidade decorre de que nesta distância toda a plataforma de Cidreira está oculta, atrás e abaixo do horizonte para o observador em Tramandaí.

4) Nível da água. Corpos de água, como rios ou lagos, segundo os terraplanistas, estão nivelados. Deveriam ter uma curvatura se a Terra fosse uma esfera.

A superfície das águas está de fato nivelada. Entretanto tal nivelamento se dá em relação a uma superfície esférica com raio de curvatura de 6,4 mil km (raio da Terra) e não em relação a uma superfície plana. Se a superfície das águas fosse rigorosamente plana, os efeitos de ocultação notados no quesito anterior, não aconteceriam. Para pequenas distâncias a curvatura da Terra e, por extensão da superfície das águas, pode ser desprezada, mas conforme aumentam as dimensões, ela se torna evidente. Por exemplo, as normas técnicas da ABNT sobre levantamento topográfico (NBR 13133) preconiza as condições nas quais já se deve introduzir correções para a curvatura da Terra em levantamentos topográficos: em distâncias superiores a 1000 m as medidas de desníveis já devem sofrer tais correções. Esta orientação evidencia que apesar de não percebermos cotidianamente os efeitos de curvatura em curtas distâncias, em medidas precisas tal deve ser tomado em conta sob pena de erros não desprezíveis em levantamentos topográficos e nas suas aplicações em variadas obras de engenharia como construções de estradas, canais, pontes, … .

5) Fotos feitas do espaço. Terraplanistas duvidam de evidência fotográfica, porque consideram que é fácil manipular imagens. Também afirmam que as fotos existentes apresentam inconsistências. Para eles, a exploração espacial nunca aconteceu.  É só uma conspiração.

O nosso conhecimento sobre a geometria da Terra antecede em muito a possibilidade de se fotografar a Terra de fora. Por exemplo, entre 1736 e 1745 as expedições geodésicas francesas à Lapônia e ao Peru fizeram as primeiras medidas precisas do pequeníssimo achatamento do diâmetro polar da Terra em relação ao diâmetro equatorial, corroborando espetacularmente a previsão de Newton de que a Terra é um esferoide levemente achatado (leia mais em https://bit.ly/31Izr6T).

As imagens obtidas por satélites sobre nosso planeta são reais e têm impactos diretos sobre nossa vida, por exemplo auxiliando no prognóstico de eventos climáticos que cotidianamente são referidos nos boletins meteorológicos. Graças a tais tecnologias é possível antecipar catástrofes como tempestades e furacões. Assim também temos conhecimento sobre o desmatamento acelerado da Amazônia.

A negação sobre as tecnologias de exploração espacial caracteriza um grau de ignorância ou de hipocrisia enorme.  Por exemplo, cada antena parabólica apontada para o céu (e elas existem aos milhares em nossas cidades) está “vendo” (recebendo a radiação eletromagnética) de um satélite geoestacionário a cerca de 36 mil km da superfície da Terra de que, inclusive os terraplanistas, se valem para assistir televisão por exemplo (leia mais em https://bit.ly/2Z8ISi0).

6) Depoimentos de astronautas. Segundo a Sociedade da Terra Plana, os astronautas que foram ao espaço e disseram ter visto que a Terra é redonda podem ter sido subornados ou obrigados a dizer isso. Outra hipótese que levantam é que os astronautas tenham sido iludidos para acreditar na esfericidade…

A conspiração negacionista prolifera entre os terraplanistas. Como já notado anteriormente o nosso conhecimento sobre a forma da Terra antecede em muito a existência dos astronautas pois estes surgiram nos anos 60 do século passado. Não teríamos dúvidas sobre a mentira dos astronautas caso eles negassem a esfericidade da Terra. A esfericidade da Terra somente pode ser negada por pessoas ignorantes e/ou religiosos fideístas.

A base ideológica do terraplanismo é uma tacanha forma de fundamentalismo religioso conforme a simples inspeção visual do mapa de Orlando Ferguson (1893) atesta, inspirado em uma interpretação literal da Bíblia com anjos nos quatro cantos da Terra. E se for lida a legenda ao pé dessa figura, fica escancarada a pretensa fundamentação bíblica do terraplanismo: Escrituras condenam a teoria do globo

7) O sol e a lua. O sol e a lua são pequenas esferas situadas a uns poucos milhares de quilômetros da Terra. Eles movem-se em círculos ao redor do Polo Norte. Quando o sol está sobre determinada parte do disco que forma a Terra, é dia ali. Quando não está, é noite. O sol pode fazer o círculo mais perto do Polo Norte ou mais perto da borda de gelo, o que explicaria as diferentes estações do ano.

As diversas tentativas de avaliar a que altitude o Sol (e a Lua) se encontra sobre a mitológica Terra Plana levaram a resultados inconsistentes, variando entre mil e 6 mil km. As razões dessas inconsistências, a cada tentativa resultando em um valor completamente diferente dos anteriores, decorre de que a Terra é esférica de fato (leia mais em https://bit.ly/2Opb1JF).

No modelo de Terra Plana, onde o Sol orbita em uma trajetória sempre acima da face da Terra Plana, não se explica como vemos o Sol cruzar a linha do horizonte ao amanhecer e ao entardecer. Aliás, o Sol sequer pode, neste modelo, se aproximar e depois desaparecer abaixo horizonte. Portanto a cada nascer e pôr do Sol a Terra Plana é refutada.

Adicionalmente a órbita do Sol mais ao sul da Terra Plana, segundo os terraplanistas, coincide com o Trópico de Capricórnio no verão que, como é bem sabido, passa por São Paulo. Assim sendo, segundo os terraplanistas, não pode existir o fenômeno do Sol durante as 24 horas de um dia acima do horizonte na Antártica pois se for noite no verão no Trópico de Capricórnio, ao sul dele também deverá ser noite. Como o fenômeno das 24 h de Sol no verão dentro do círculo polar antártico é vivenciado por pessoas naquelas latitudes, a Terra Plana está novamente refutada. Aliás a UFRGS possui uma base na Antártida – Centro Polar e Climático (vide https://bit.ly/2Z3eBkH) – e nossos pesquisadores antárticos atestam a veracidade do fenômeno do sol sobre o horizonte durante as 24 h do dia dentro do círculo polar no verão.

Aqui em Porto Alegre, o Sol, segundo os terraplanistas, sempre estará ao norte pois nos encontramos ao sul de São Paulo, ao sul do Trópico de Capricórnio, local da órbita solar mais ao sul da Terra Plana.  Entretanto sabemos que no verão o nascente e o poente solar em Porto Alegre se encontram respectivamente nos quadrantes sudeste e sudoeste (portanto ao sul do leste e do oeste), refutando outra vez a mitológica Terra Plana pois tais posições solares são impossíveis no mundo chato. Basta observarmos o mundo, armados apenas com os órgãos dos sentidos e com a razão, para concluirmos que a Terra Plana não passa de um devaneio sem qualquer base empírica.

Outras postagens relacionadas com os temas aqui tratados estão disponíveis em https://bit.ly/2TyvpuN.

Adicionado em 16/08/2019: Reportagem na Zero Hora.

“Docendo discimus.” (Sêneca)

 


2 comentários em “Terra Plana: respostas ao jornal Zero Hora

  1. fox91 disse:

    Percebo também que, se a terra fosse plana, não teríamos noites. O sol iluminaria toda a superfície plana durante todo o ano. Isso afetaria também a atmosfera da terra, as estações, etc. Seria um inferno viver na terra.

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