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Sombras não paralelas nas fotos das missões Apollo: seriam as fotos falsas?

Professor Lang

Eu vi em um vídeo que duvida das idas dos norte-americanos à Lua o argumento de que sendo o Sol a única fonte luminosa, as sombras dos objetos na Lua deveriam ser paralelas. Entretanto o produtor do vídeo exibiu algumas fotos das missões Apolo nas quais as sombras não são paralelas. A imagem seguinte apareceu no vídeo e é a missão Apollo 16.

O fulano de tal (observação: nome foi omitido pois uma pessoa de optou pela desinformação não merece sequer ser indicado em um sítio que preza o conhecimento) , que diz ser físico e é o dono do canal, explicou que as sombras foram produzidas por fontes luminosas diversas em um estúdio, possivelmente pelo cineasta Kubrick.

Eu tenho certeza que nesta e em outras fotos a iluminação não foi produzida por fontes diversas pois a sombra de cada objeto é única. Gostaria de saber como é possível a produção de sombras não paralelas como estas da fotografia da NASA e como tal se relaciona com as leis da óptica.

Agradeço antecipadamente a sua explicação e não deixe o combate das empulhações que acontecem  no canal referido e em tantos outros. Abraços

 

Respondido por: Prof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/

Tens toda a razão sobre a evidência de um única sombra não apenas nesta foto mas em muitas outras disponíveis em photos/projectapolloarchive.

É lamentável que alguém que tenha formação em Física faça o exercício de dissociação cognitiva (ou seja tão ignorante!) a fim de sustentar o argumento de que as fotos são falsas baseado em um rasteiro negacionismo.  Demonstrarei a seguir que se as sombras nas fotos fossem paralelas, então estaria configurada uma fraude.

Vou iniciar com um argumento teórico baseado no conhecimento que a Óptica Geométrica propicia sobre as imagens conjugadas por lentes.

As imagens que vemos nas fotos foram conseguidas sobre a região focal da lente objetiva dado que os objetos se encontram a distâncias muito maiores da lente do que a própria distância focal da objetiva. A distância focal das objetivas das câmaras Hasselblad 500, usadas nas missões Apollo, era 50 mm e portanto qualquer objeto a  um metro ou mais cumpre a condição de se situar a uma distância muito maior do que 50 mm, ou seja, tais objetos se encontram virtualmente no infinito para a lente. Então todas as imagens captadas na foto indicada se encontram a 50 mm da lente.

Duas retas paralelas cumprem a condição de estarem sempre a mesma distância uma da outra. Entretanto se as retas forem objetos para uma lente convergente, as retas-imagem não serão paralelas aproximando-se uma da outra conforme a distância à lente aumenta. Tal decorre teoricamente da “equação de Gauss para as distâncias do objeto e da imagem” e da “equação da magnificação da imagem em relação ao objeto“.

Agora segue alguns exemplos como fotografias.  Na figura 1 uma longa fila de postes balizadores, alinhados e com espaçamento uniforme entre os postes contíguos, foram fotografados em um fim de tarde no Parque da Redenção (Porto Alegre – RS).

Na figura 2 diversas retas paralelas estão indicadas, aparecendo como retas-imagem convergentes. Nossas imagens na retina para retas paralelas apresentam  a mesma propriedade e por isso a nossa percepção espacial decorrente da visão leva a que retas paralelas sejam no fenômeno (fenômeno: aquilo que se apresenta para um observador) retas convergentes. As chamadas leis da perspectiva não dizem respeito ao mundo em si (o númeno), expressando como o mundo se apresenta para nós (o fenômeno).  Merece ser feita aqui uma referência ao grande filósofo alemão Kant que no século XVIII nos alertou para as limitações e os pressupostos de todo o nosso conhecimento (vide mais em  A TEORIA DO CONHECIMENTO DE KANT: O IDEALISMO TRANSCENDENTAL).

 Na figura 3 vê-se que as sombras dos postes se apresentam não paralelas, convergindo para um ponto de fuga diverso das retas azuis.

Na figura 4 vê-se as sombras de dois postes no final da tarde em uma rua de Tramandaí -RS. Outra vez as sombras paralelas aparecem como sombras convergentes.

 

Na figura 5 uma vista diferente das sombras dos dois postes ( já visualizas na figura 4) revela outro detalhe também indicado em algumas fotos das missões Apollo como prova de farsa. As sombras que deveriam ser retilíneas estão entortadas. Neste caso é fácil de se perceber que a sinuosidade das sombras (destacadas por comparação com as retas vermelhas) decorre de um efeito  do chão pois há ali junto da faixa de segurança para pedestres uma lombada. Entretanto em terrenos com relevo desconhecido, não perceptível na fotografia, tal comportamento é estranho e os negacionistas o tomam como consequência de fraudes nas paisagens lunares.

As linhas azuis da figura 5 convergem para o ponto de fuga das faixas listradas e paralelas que fazem parte da faixa de segurança.

A figura 6 mostra um recanto no Parque da Redenção iluminado pela luz solar de final de tarde. Outra vez observam-se sombras aparentemente projetadas em direções variadas.

Desta forma fica evidente que o não paralelismo das sombras observadas em muitas das fotografias  das missões Apollo NÃO são provas de uma suposta fraude, indicando por outro lado uma terrível deficiência cognitiva dos negacionistas das viagens à Lua. Qualquer pessoa com um elementar conhecimento de Óptica Geométrica e/ou de fotografia não deveria usar argumentos como o do fulano de tal, dono de um canal no YT que patrocina a desinformação por razões de cunho religioso.

Outra postagem do CREF sobre a alegada farsa da Lua, motivada por um canal do YT com nítida orientação religiosa fundamentalista (e terraplanista), é a seguinte: Tamanho da Terra em foto da NASA: prova de que a foto é falsa?

Outra postagem diretamente relacionada com esta diz respeito ao delírio dos terraplanistas em  A divergência da luz crepuscular prova que o Sol da Terra Plana está logo ali! Será mesmo?

Um vídeo que todos os negacionistas, adeptos da “farsa da Lua”, deveriam assistir: If the Moon landings were hoaxed, then all this is necessary…..

“Docendo discimus.” (Sêneca)

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Comentário do Prof. Alexandre Medeiros no Facebook em 10/01/2017

Alexandre Medeiros Caro Fernando, eu CANSEI de ouvir de muitos estudantes de Física essas TOLICES de que “o homem nunca foi à Lua”. Coloquei um ponto final em minhas infindáveis respostas a esses malucos (imagine os que nem Física estudaram) escrevendo um texto para eles em 2011 que você já conhece bem. De vez em quando eu tenho de recomendar que mais um outro aloprado leia o mesmo para não ter de responder sempre a mesma coisa. CANSA! Essa gente é da mesma espécie dos Terrachatos e dos Criacionistas. Um reles BANDO DE IDIOTAS! Rsrsrs …  OS “CONSPIRANÓICOS” E A LUA


4 comentários em “Sombras não paralelas nas fotos das missões Apollo: seriam as fotos falsas?

  1. José Ciríaco Silva Dutra disse:

    Bom dia, professor Fernando!
    Também sou prof de Ciências e seguidamente tenho de responder questões desse tipo.
    O que eu mais lamento é o desperdício de tempo de pessoas como o senhor e o professor Alexandre e tantos outros professores e cientistas que precisam ficar debruçados sobre essas questões. Questões essas que bastaria um pouco de estudo e raciocínio razoavelmente organizado para chegar à interpretação mais adequada. Por outro lado, nos serve de alerta para a necessidade da preservação e difusão do conhecimento científico. Abraço.

  2. Wanderson Souza Araújo disse:

    Professor, após sua palestra, pensei um pouco e tive uma dúvida. Se caso a distância focal fosse maior, mesmo com a lente convergente conseguiríamos ver retas paralelas?

    • Fernando Lang disse:

      Imagens de retas paralelas serão (quase) retas paralelas se a distância máxima e mínima em relação à lente, da região de interesse, é semelhante. Na foto que segue a região com ladrilhos do piso de minha cozinha contempla aproximadamente a condição especificada.

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