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Refração atmosférica e o Sol na mitológica Terra Plana e no mundo real

Professor Lang

Eu li alguns comentários seus no YT em confronto com os terraplanistas (ou terra-chatos como o sr. os denomina) relativamente ao pôr do sol. Eles alegam que o Sol nunca ultrapassa a linha do horizonte  e que o efeito  de aparente pôr do sol se deve à perspectiva e à refração na atmosfera (ou segundo eles “atmosplana”). Os terraplanistas falam em uma refração da luz na atmosfera  fazendo o Sol baixar quando de fato ele sempre está acima do horizonte da TP. É verdade que a refração determina que o Sol seja visto mais baixo e que possa fazê-lo desaparecer por diminuir seu tamanho aparente? Agradeço por antecipação sua resposta.

 

Respondido por: Prof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/

O tamanho angular do Sol  (tamanho aparente) para um observador na Terra  é praticamente constante (cerca de 0,5°) de um momento para o outro do dia e varia muito pouco ao longo do ano devido à pequena excentricidade da órbita da Terra em torno do Sol. Sabemos experimentalmente que o Sol não apresenta mudanças importantes em seu diâmetro angular quando observado da Terra conforme indicado a seguir:

1 – O tamanho angular do Sol pode ser facilmente estimado com materiais muito simples (um pequeno espelho plano, papel, trena, …) conforme posto em O_QUE_VEMOS_QUANDO_PROJETAMOS_A_LUZ_DO_SOL_COM_UM_ESPELHO_PLANO  ou em medir-o-diametro-do-sol.

2 – O tamanho angular do Sol pode ser medido com muita exatidão com instrumentos ópticos mais sofisticados,  utilizados há séculos por astrônomos. Arquimedes no século III a.C. já fez a determinação do tamanho aparente do Sol em  O Contador de Areia.

Qualquer pessoa que já assistiu um nascer ou um pôr do sol observa que durante esta transição não há objetivamente mudança no tamanho aparente do astro (idem para a lua cheia ao nascer ou se pôr) e que, portanto, o Sol não está se afastando de nós como “argumentam” estupidamente os terra-chatos. A simples inspeção visual desta transição é suficiente para refutar o absurdo da “explicação” na mitológica Terra Plana sobre a ocultação do Sol. A figura 1 apresenta uma sequência de fotografias do Sol no poente, retirada da Wikipedia, onde não são registradas mudanças em seu tamanho, evidenciando o a ocultação do astro atrás do horizonte.

Há três semanas, no voo SP-PoA ao cair da tarde, a luz avermelhada do Sol no poente entrava pelas janelas  e coloria o interior da aeronave a 11 km de altitude; naquela altitude o horizonte distante cerca de 400 km (vide Distância ao horizonte) permitia ainda ver o Sol. Lá embaixo a noite já caíra e se viam as luzes de uma cidade. Como explicar este fato na esdrúxula TP?

Desde o século de XVII já existem modelos que calculam os efeitos de refração atmosférica na luz provinda dos astros, sendo um dos pioneiros o de Giovanni Domenico Cassini.

A figura 2 representa esquematicamente, com exagero, este desvio da luz ao cruzar a atmosfera. Quanto mais elevado um astro esteja no céu, tanto menor é o desvio. O valor máximo de 0,5° acontece quando o astro se apresenta no horizonte. IMPORTANTE: a propagação da luz na atmosfera não é retilínea conforme a figura 1 mostra mas é curvilínea devido a mudanças contínuas e crescentes no índice de refração da luz ao passar pela atmosfera cada mais densa até chegar ao observador.

Assim sendo, a refração da luz na atmosfera, contrariamente à proposição dos terra-chatos, nunca determina que um astro seja visto em uma posição aparente inferior à sua verdadeira posição.

A diferença máxima entre as posições aparente e verdadeira é muito aproximadamente igual ao diâmetro angular do Sol (e da Lua também), determinando que quando um observador na Terra percebe que o Sol poente toca o horizonte, de fato ele já se encontra encoberto abaixo do horizonte conforme a figura 3 representa (o mesmo vale para a Lua).

Quando o Sol é visto próximo ao horizonte é possível notar facilmente que o seu diâmetro vertical está reduzido em relação ao seu diâmetro horizontal. Na figura 4 o diâmetro vertical do Sol perfaz 92% do diâmetro horizontal.

O achatamento máximo ocorre quando Sol toca o horizonte determinando então que o diâmetro vertical perfaça cerca de 5/6 do diâmetro horizontal conforme discutido em Sol achatado junto do horizonte.

O achatamento do Sol junto ao horizonte por si só constitui-se em uma importante evidência de que a refração atmosférica determina que as posições aparentes das coisas vistas no céu estão elevadas em relação às suas posições reais. Caso a refração operasse em acordo com a proposição dos terra-chatos, i.e. diminuindo a elevação das coisas observadas no céu, o achatamento do Sol junto ao horizonte seria no sentido de alongar o diâmetro vertical em relação ao horizontal. Desta forma a observação do Sol no céu do mundo real refuta de muitas maneiras a esdrúxula, anacrônica e fideísta Terra Plana.

Recomenda-se o excelente vídeo intitulado O problema do Sol no horizonte.

Aqui uma sequência de fotos – Time lapse sunset – mostrando que o Sol permanece sempre com o mesmo tamanho angular (exceto pelo pequeno achatamento do seu diâmetro vertical) enquanto se aproxima do horizonte, refutando assim a concepção estapafúrdia dos terra-chatos de que o Sol diminui de tamanho, desaparecendo de nossa visão sem entretanto cruzar a linha do horizonte.

Outras postagens do CREF refutando a mitológica TP: Mítica Terra Plana.

Adicionado em 28/06/2019: Sequência de fotos do pôr do sol no lago Guaíba – Porto Algre – RS colhidas pelo Prof. Carlos Pinent.

“Docendo discimus.” (Sêneca)


3 comentários em “Refração atmosférica e o Sol na mitológica Terra Plana e no mundo real

  1. Dênis Barbosa disse:

    Boa noite professor,

    Gostaria de tirar um duvida a respeito da entrada da luz solar na terra. Aprendemos que devido a distância do sol, os raios entram de forma paralela e retilínea, minha dúvida é: Vemos que a diferença angular pode fazer os raios da terra serem vistos em graus (inclinação) diferente da realidade. Mas a minha dúvida é se a diferença angular pode fazer os raios se inclinarem para ângulos diferentes ou se eles apenas são reproduzidos da mesma forma em que entram, mas em ângulo diferente? Ex.: Raios entram em paralelo e a diferença angular fazem eles serem observados em ângulos diferentes, raios dispersos para todos os lados.

    • Fernando Lang disse:

      O teu questionamento está confuso! Não existe qualquer discrepância entre a realidade e o que se sabe sobre o comportamento da luz solar.

      A luz que vem do Sol chega até nós como raios quase paralelos, na verdade raios divergentes com divergência máxima de 0,5°.
      Esta pequena divergência tem efeitos notáveis que discutimos em no mínimo três artigos publicados em revistas de ensino de Física, condensados em um capítulo de livro disponível aqui: Efeitos inusitados da Luz do Sol.

      A divergência de no máximo 0,5° entre raios luminosos que chegam no sistema Terra-Lua explica por exemplo os cones de sombras relacionados com os eclipses, além de ter outras consequências interessantes, tratadas por exemplo em Sombra da luz solar: efeito ET!
      efeito ET

  2. Jose Roberto disse:

    Obrigado por seus trabalhos de responder às perguntas professor, está sendo muito importante para mim, para ter respostas aos terraplanistas, gostaria de ter sido seu aluno !

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