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REALISMO CRÍTICO

O que é REALISMO CRÍTICO?

Respondido por: Rof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/

Comentários no FB sobre o tema com o prof. Alexandre Medeiros da UFRPe

Alexandre Medeiros – Tentemos ser DIDÁTICOS com os nossos colegas mais jovens e que apesar de muito inteligentes, ainda não conhecem essa TERMINOLOGIA filosófica referente à CiÊNCIA. Penso que, em parte, esse desconhecimento e também uma atitude nossa em nem sempre esclarecermos os TERMOS USADOS contribui para uma não apreciação correta da importância das questões filosóficas envolvidas.

Alexandre Medeiros – Assim sendo, cabe notar que para que se compreeenda bem o que significa REALISMO CRÍTICO é necessário entender antes o que significam: REALISMO e IDEALISMO.

Alexandre Medeiros – A postura do REALISMO CRÍTICO vai muito além do REALISMO INGÊNUO (ou científico). PARA COMEÇAR, poderíamos questionar SE existe uma realidade independentemente da nossa cognição ou SE seria a realidade uma elaboração do próprio pensamento humano. E mais: qual a relação entre as afirmações da ciência e a realidade?

Alexandre Medeiros – A resposta do REALISMO (simples e sem qualquer adjetivação) é afirmar que a realidade existe independentemente de ser percebida ou compreendida por nós. CLARO?

Alexandre Medeiros – A posição do REALISMO INGÊNUO, ou realismo científico, entretanto, é bem MAIS OUSADA; ela advoga que NÃO APENAS a realidade existe independentemente da nossa cognição, mas que, TAMBÉM, as afirmações da ciência são DESCRIÇÕES FIÉIS de como a realidade É. OK?

Alexandre Medeiros – Assim, a posição do REALISMO INGÊNUO equivale uma adesão total ao OBJETIVISMO, à preponderância do OBJETO sobre o SUJEITO cognoscente. Para o REALISMO INGÊNUO as afirmações da ciência têm o status de ‘VERDADES INQUESTIONÁVEIS’ sem qualquer mediação humana. OK?

Alexandre Medeiros – Em OPOSIÇÃO DIRETA ao REALISMO INGÊNUO, a posição IDEALISTA afirma que a realidade é um produto da mente humana e existe apenas na medida em que é percebida por nós. OK?

Alexandre Medeiros – A filosofia registra, entretanto, várias CRÍTICAS a tal posicionamento, apontando o quanto a POSIÇÃO IDEALISTA implica em um SOLIPSISMO, ou seja, na consequência de que cada indivíduo construa a sua própria realidade, sem ligação com a do outro. OK?

Alexandre Medeiros – A POSTURA IDEALISTA, tomada literalmente, leva-nos à percepção do mundo como “UM ASILO DE LOUCOS”. Afinal, como bem dizia Fernando Pessoa: “o mundo não é uma idéia minha, mas a minha idéia do mundo é que é uma idéia minha” (1983).

Alexandre Medeiros – Assim, pode-se perceber, nas palavras de Fernando Pessoa, que a rejeição da posição realista ingênua NÃO ACARRETA a obrigatoriedade de assumirmos uma posição idealista. ISSO É IMPORTANTÍSSIMO! OK?

Alexandre Medeiros – É perfeitamente possível MANTER uma posição REALISTA, afirmando, deste modo, que “a realidade existe independentemente da nossa cognição”, sem sermos obrigados a cair em uma postura idealista que toma a realidade como uma livre criação da nossa mente. SUTIL, mas VITAL!

Alexandre Medeiros – Essa é a postura do REALISMO CRÍTICO, ou seja, a postura de assumir a primazia da existência do mundo; admitindo, entretanto, que as descrições da ciência são apenas CONSTRUÇÕES METAFÓRICAS da mesma. OK?

Alexandre Medeiros – Neste sentido, a postura do REALISMO CRÍTICO livra-se da ortodoxia da visão realista ingênua, sem correr o risco de cair num construtivismo idealista (Matthews, 1994; Medeiros, 1999; Medeiros & Bezerra Filho, 2000).

Alexandre Medeiros – Para discutir e aprofundar mais o tema leiam criticamente o meu artigo na RBPEC Vol 1, N1, 2001.

Fernando Lang da Silveira – Ótimo Alexandre Medeiros -!

Alexandre Medeiros – UFA! Desculpem o JORNAL. Rsrsrsrs … Mas, acho que precisamos respeitar muito os colegas mais jovens.

Fernando Lang da Silveira – O REALISTA CRÍTICO também crê que um dos objetivos da ciência é atingir com suas TEORIAS esta realidade que não depende da sua mente. Entretanto reconhece a FALIBILIDADE das tentativas de dar conta da realidade, considerando essas tentativas como PROVISÓRIAS e CORRIGÍVEIS.

Alexandre Medeiros – ISSO! E quem melhor descreveu o que acabas de escrever foi o nosso velho EINSTEIN em sua bela metáfora do homem que tenta compreender o funcionamento de um relógio que não pode jamais abrir.

Fernando Lang da Silveira – Para o REALISTA CRÍTICO o conhecimento se origina na TEORIA e na OBSERVAÇÃO/EXPERIMENTAÇÃO, mas nenhuma delas pode pronunciar um veredito final sobre qualquer coisa. Vide A FILOSOFIA DA CIÊNCIA DE KARL POPPER: O RACIONALISMO CRÍTICO.

Alexandre Medeiros – Naquela metáfora, EINSTEIN traçava uma magistral assertiva para a VERDADE OBJETIVA como um LIMITE do qual podemos NOS APROXIMAR, mas não exatamente ATINGIR. É como a sutil diferença entre o limite do valor de uma função e o real valor da mesma função em um determinado ponto.

Alexandre Medeiros – Você, agora, ABRIU O LEQUE da discussão, Fernando Lang da Silveira -. Introduziu: 1. A questão da ORIGEM do conhecimento e 2. A questão da VALIDADE do mesmo. Estas são ótimas questões EPISTEMOLÓGICAS (sobre a origem e validade do conhecimento). O que estávamos discutindo até agora era uma questão ONTOLÓGICA (sobre o SER, ou seja sobre o que É o conhecimento científico).

Alexandre Medeiros – VOLTEMOS ao brilhante DEBATE histórico sobre a questão do ATOMISMO conforme sua postagem. O átomo existe de fato?

Ele ILUSTRA muito bem tudo o que estamos discutindo acima. E com MAIS SABOR! Rsrsrsrs …

Fernando Lang da Silveira – É verdade Alexandre Medeiros -. Mas o REALISTA CRÍTICO não apenas afirma o REALISMO ONTOLÓGICO ou METAFÍSICO mas também o REALIsMO EPISTOMOLÓGICO, isto é, nossas TEORIAS captam parcialmente, provisoriamente a REALIDADE.

Alexandre Medeiros – CERTÍSSIMO! Eu apenas quero evitar abrir demais este leque para não afastar os colegas ainda não acostumados a toda esta termonologia. Lembre-se da minha preocupação inicial.

Alexandre Medeiros – Afinal, estamos aqui, como legitimos dinossauros, para esclarecer e não para confundir. Rsrsrs …

Fernando Lang da Silveira – Quase extintos, queres dizer!

Alexandre Medeiros – ISSO! E ainda mais se nos considerarmos como legitimos portadores de CROMOSSOMOS Y. Rsrsrs …

Fernando Lang da Silveira – Estamos tentando disseminar por aqui alguns MEMES, não achas?

Alexandre Medeiros – Mas, retomemos por debate histórico que você sugeriu. Creio que antes de analisarmos melhor os argumentos dos ATOMISTAS versus os argumentos dos ENERGETICISTAS do final do século XIX, caberia notar que o DEBATE entre natureza CORPUSCULAR X CONTÍNUO tem uma longa história de mais de 2.000 anos e TRÊS GRANDES VERTENTES no mesmo.

Fernando Lang da Silveira – De fato! Ontem notei aos meus alunos que uma das razões da oposição aos ATOMISTAS pelos PLENISTAS desde a Antiguidade está relacionada à ideia de VÁCUO.

Alexandre Medeiros – 1. Vertente Filosofica que se inicia na Grecia Antiga. 2 Vertente ligada com a QUIMICA e suas relacoes ponderais e 3. Vertente da FISICA que envolve a Teoria Cinetica e consequentemente a TERMODINAMICA e a propria factibilidade da Mecanica Estatistica. Neste cenario previamente estabelecido se travou o DEBATE ao qual voce bem se referiu.

Alexandre Medeiros – ISSO! O Vacuo estava intimamente ligado ao Atomismo e sua aceitacao era algo NADA trivial, ao menos dentro dos canones herdados do aristotelismo.

Alexandre Medeiros – VOU ALMOCAR. Ha um VACUO nada aristotelico em meu estomago. Rsrsrs … Depois a gente discute mais um pouco.

Textos indicado pelo prof. Alexandre Medeiros sobre o tema:  http://goo.gl/4fICt

Visualizações entre 27 de maio de 2013 e novembro de 2017: 3723.


2 comentários em “REALISMO CRÍTICO

  1. Achei interessante e gostei desta resposta obrigada!!!!

  2. O link indicado pelo professor Alexandre Medeiros não está mais disponível hoje. Não sei exatamente qual era o link talvez era um link para o seu artigo intitulado “A NATUREZA DA CIÊNCIA E A INSTRUMENTAÇÃO
    PARA O ENSINO DA FÍSICA” no qual ele discute sobre natureza da ciência no contexto da instrumentação e do uso de experimento abordando tanto a questão da origem do conhecimento, quanto o mecanismo de aceitação social, mas também a questão das complexas relações entre teoria e experimentos.
    link para o artigo: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-73132000000200003

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