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Pode um resultado negativo em um ”teste de curvatura” refutar o globo?

Esta postagem é motivada por uma mensagem recebida no CREF de um membro da Academia Terra Plana (academia tão virtual quanto o mundo mítico da Terra Plana?) com o seguinte teor:

Olá Sr. Fernando Lang!
Já que neste pequeno artigo nos dá a explicação de como calcular a distância da linha do horizonte e graças a isso podemos calcular o quanto é visto de um navio/ilha após a linha do horizonte. Gostaria de lhe Perguntar: Como é possível ver uma ilhota a 46,914 km (segundo o GOOGLE EARTH) de distância a olho nu estando em pé a beira da praia?

Ponto e elevação do solo onde encontra-se o OBSERVADOR é igual a 4 Metros. (Segundo o GOOGLE EARTH) Altura do OBSERVADOR 1,92 Metros.

Segundo os sites indicado no seu pequeno artigo.
Resultado = Linha do horizonte: 8685.20 metros. Em 46914 metros ficam 114.7 abaixo

Acha que foi refração ou a terra é plana?

Aguardo uma resposta. Ass.: Hemerson

O terraplanista, além de postar a “inteligente” pergunta duas vezes no CREF (1, 2), reiterou-a no dia seguinte (3) demonstrando pressa na resposta. A resposta que darei é muito mais geral do que o Hemerson perguntou.

Inicialmente pensei em não responder a tão infantil questionamento do “acadêmico terra-chato” pois ele não dá nenhuma indicação para que se possa julgar sobre a veracidade das alegadas medidas. Ele simplesmente afirma existirem tais observações sem dar detalhes sobre onde e em que circunstâncias elas ocorreram. Como é bem sabido, qualquer alegação empírica deve ser apresentada de forma a que outros observadores a possam replicar.

Depois decidi dar uma resposta não apenas a ele mas uma resposta genérica a uma pergunta mais geral  colocada como título da postagem: Pode um resultado negativo em um ”teste de curvatura” refutar o enunciado de que a Terra é um globo e sustentar a anacrônica e esdrúxula concepção de que a Terra é plana?

 

Respondido por: Prof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/

Inicialmente pensei em não responder a tão infantil questionamento do “acadêmico terra-chato” pois ele não dá nenhuma indicação para que se possa julgar sobre a veracidade das alegadas medidas. Ele simplesmente afirma existirem tais observações sem dar detalhes sobre onde e em que circunstâncias elas ocorreram. Como é bem sabido, qualquer alegação empírica deve ser apresentada de forma a que outros observadores a possam replicar. Dizer simplesmente que algo foi observado não tem valor científico.

Depois decidi dar uma resposta não apenas a ele mas uma resposta genérica a uma pergunta mais geral  colocada como título da postagem: Pode um resultado negativo em um ”teste de curvatura” refutar o enunciado de que a Terra é um globo e sustentar a anacrônica e esdrúxula concepção de que a Terra é plana?

A minha resposta será dada ao longo de algumas seções, sendo a primeira uma reflexão epistemológica sobre o nosso conhecimento relativo à forma da Terra e como ele está incorporados às ciências em geral e às realizações tecnológicas.

1 – A proposição sobre a forma da Terra integra uma rede de conhecimentos científicos

Iniciarei notando que a proposição ou enunciado que expressa o conhecimento sobre a forma Terra tem sido aprimorada teórica e experimentalmente ao longo de 25 séculos, integrando diversas ciências, além de estar incorporado em muitas tecnologias antigas e atuais. Portanto este conhecimento não se reduz a uma proposição isolada, integrando uma vasta rede cognitiva.

Sem pretender detalhar aqui toda esta história – para mais detalhes vide o artigo publicado na revista Física na Escola da Sociedade Brasileira de Física, intitulado Sobre a forma da Terra –  noto que o enunciado inicial já encontrado em Aristóteles  “a Terra é esférica” se sofisticou em precisão ainda na Grécia Antiga para a Terra é esférica e sua circunferência mede 250 mil estádios.

No século XVI, com as medidas de Jean François Fernel do comprimento de um grau do meridiano de Paris, o enunciado adquiriu mais precisão ainda, sendo então “a Terra é esférica e o comprimento do meridiano de Paris é 20,4 milhões de toesas (39,8 mil quilômetros no SI)”.

No século XVII Newton calculou teoricamente quanto o diâmetro polar da Terra é menor do que o diâmetro equatorial e no século XVIII, com as medidas das expedições geodésicas francesas na Lapônia e na América (1736-1745) o enunciado adquiriu impressionante grau de sofisticação quantitativa: “o esferoide oblato que representa a Terra tem o diâmetro equatorial uma parte em 193 maior do que o diâmetro polar. É importante notar que o aprimoramento quantitativo dos detalhes sobre a geometria de nosso planeta antecede em séculos a possibilidade de se ver a Terra de longe como hoje é possível – antecedendo em muito as agências espaciais que se constituíram na segunda metade do século XX, não podendo desta forma ser atribuído à NASA como os terra-chatos imputam por ignorância e/ou desonestidade intelectual.

Recentemente as nuances na geometria da Terra e do seu campo gravitacional puderam ser detalhadas pelo projeto GRACE, entretanto tais detalhes apenas ratificam o conhecimento constituído ao longo da extensa história de 25 séculos. Daqui para diante indicarei o enunciado que expressa o nosso conhecimento sobre a forma da Terra pela sigla EFT.

O EFT não se constitui em um conhecimento isolado teórica e experimentalmente pois decorre de teorias muito bem corroboradas e fundamentais da Física, bem como está suportado empiricamente por diversos métodos experimentais e observacionais diferentes e independentes. Adicionalmente faz parte de diversas ciências da natureza – como a Física, Astronomia, Geologia, Geografia, Cosmologia, … – e ciências humanas – como a História, a Sociologia, a Economia, … .

Como todo o conhecimento científico o EFT faz parte de uma rede fortemente interconectada de proposições teóricas e empíricas sobre a realidade.

O EFT está incorporado em uma enorme quantidade de tecnologias. Alguns exemplos entre as muitas realizações práticas:

– As técnicas de navegação aérea e marítima dependem de um sistema de coordenadas esféricas contendo os conceitos de latitude e longitude. Ainda que se possa pensar em longitude em um modelo de Terra plana, o conceito de latitude, bem como as técnicas através das quais as coordenadas de latitude são definidas e medidas, carece de significado. Até hoje terraplanistas, apesar de usarem coordenadas de latitude e longitude, não explicaram o significado da latitude em uma Terra chata.

– Os sistemas de posicionamento global (o mais conhecido entre nós é o GPS americano, entretanto há outro, o russo GLONASS e mais alguns operando parcialmente e outros em desenvolvimento) não fazem sentido sem o EFT.

– As telecomunicações por micro-ondas são limitadas ao horizonte da antena em acordo com o EFT.

– As antenas parabólicas para captarem sinais dos satélites geoestacionários dependem do EFT.

Assim sendo, o EFT recebe apoio teórico, empírico e da práxis das realizações da humanidade.

2 – No que se constitui um “teste de curvatura”?

Um “teste de curvatura”, conforme os terraplanistas se propõem a fazer, se constitui na observação de um objeto distante e que de acordo com a curvatura da Terra estaria inacessível visualmente ao observador. O resultado negativo do “teste de curvatura” é a alegação de que se observa o objeto quando ele deveria estar escondido pela curvatura.

Escondido pela curvatura é uma proposição vaga que somente adquire significado empírico caso sejam assumidas determinadas hipótese adicionais. Tais hipóteses têm a ver com o comportamento da luz entre o ponto em que o objeto se encontra e o ponto de observação. Se assumirmos a hipótese de que a luz se propaga de maneira retilínea, então o objeto estará invisível caso encontre atrás e abaixo do horizonte geométrico do observador. Entretanto a propagação retilínea da luz deixa de acontecer em meios com índice de refração variável espacialmente.

O ar atmosférico no caminho da luz, apresentando gradientes (derivadas espaciais de uma grandeza) de temperatura, umidade relativa e densidade (e estes somente em situações excepcionais não acontecem), determinarão que a trajetória da luz seja encurvada (refratada). Entretanto tal encurvamento poderá ser maior ou menor (inclusive inverter de sentido) conforme sejam em uma particular situação observacional os gradientes de temperatura e densidade. Como em uma particular situação observacional usualmente não se conhece em detalhes a trajetória da luz (pois não se sabe sobre tais gradientes ao longo do caminho), assume-se uma correção “padrão” para refração conforme discutido em CREF1. Os diversos tipos de miragens evidenciam que a trajetória da luz pode ser encurvada de maneiras diferentes. E pode até acontecer excepcionalmente, conforme notado em CREF1, que o encurvamento da luz seja semelhante ao da superfície da Terra, levando nesta situação extrema e incomum que se possa observar objetos muito além do horizonte geométrico.

Desta forma, um “teste de curvatura” com resultado negativo (mesmo que não apresente desonestidade tão comum nos pseudos testes dos terra-chatos) não abala de maneira alguma o EFT (lembremos que este enunciado está corroborado extensamente conforme destacado na seção 1), no máximo se constituindo em uma instigante anomalia que poderá ser elucidada por estudos complementares.

Cabe aqui uma referência histórica envolvendo Samuel Rowbotham (o alucinado religioso fundamentalista que reviveu a anacrônica e esdrúxula Terra Plana em meados do século XIX) e seus apoiadores em relação ao canal de Bedford na Inglaterra. Um dos seguidores de Rowbotham fez uma aposta envolvendo a “planicidade do canal” com o célebre naturalista Alfred Russel Wallace. Wallace ganhou a aposta e o perdedor, John Hampden, além de não aceitar a perda, acabou por ser preso por ameaça de morte e difamação de Wallace. Desta forma fica evidente que o comportamento difamatório e destemperado não é apanágio exclusivo dos terra-chatos tupiniquins, conforme se observa ultimamente em seus videozinhos no Youtube.

3 – Reiteração de um antigo desafio aos defensores da Terra Plana

Encerro esta extensa postagem reiterando um desafio simplicíssimo que fiz aos terraplanistas e que até hoje não esboçaram sequer uma tentativa de solução. O desafio, além de postado em muitos comentários do Youtube, foi generosamente divulgado pelo canal Rogerox Tube. Desta forma estou oferecendo uma oportunidade real de demonstrarem que TP vai além de um delírio sem qualquer vínculo com o mundo real:

Prever no modelo de Terra Plana, em qualquer lugar do mundo chato e em qualquer dia, o azimute do nascente do Sol.

Esta previsão há séculos já foi feita com sucesso no modelo de Terra esférica e está incorporada em cartas solares acessíveis na internet.

Vídeos sobre a observação da ilha Sumítica: Ilha Sumítica, a Realidade; Ilha Sumítica, Teste de Curvatura Prova a Terra Plana?

Outras postagens do CREF: Mítica Terra Plana

Adicionado em 27/02/2018 –   Imperdível “teste de curvatura”:  Flat Earth is on Life Support, Let’s Pull the Plug.

Adicionado em 08/03/2019: No documentário do NETFLIX sobre a Terra Plana, são apresentados experimentos, conduzidos por terraplanistas norteamericanos, com resultados frustrantes para eles. Um desses resultados  é um “teste de curvatura” ao estilo daquele realizado por Rowbotham (já referido), com resultado refutador do mundo chato.

“Docendo discimus.” (Sêneca)


6 comentários em “Pode um resultado negativo em um ”teste de curvatura” refutar o globo?

  1. Filipe Brandão disse:

    A pessoa que faz a pergunta procede de uma maneira imprecisa, não informando que ilha é esta (local) qual é o ponto de observação, altura da ilha (ponto mais alto), etc… ele dá alguns detalhes mas não fornece dados reais do exemplo para que a gente investigue. Este é o comportamento típico terraplanista: desonestidade intelectual.

    • Fernando Lang disse:

      Muitas vezes fica difícil saber onde termina a ignorância dos terra-chatos e começa a hipocrisia e a desonestidade intelectual.

      • Salviano Peixoto disse:

        Falou, falou e não disse nada, não analisou os dados. O autor desta resposta tem alguma graduação em física ou só faz de conta?
        Quer dizer que quando o teste provar que tem curvatura, não vale? Hum, entendi!
        Aqui um bom vídeo para explicar como se comportam os pseudo-sábios cavaleiros da ordem global : o vídeo foi removido por não conter qualquer informação relevante.

  2. Elizandro Max disse:

    Na Wikipédia mesmo há uma fórmula (Young) que leva em conta a retração, com um multiplicador de 3,86. Depois disso, deve-se considerar a altura do ponto da ilhota observada (que não é dada pelo terraplanista). Se não se considerasse refração, simplesmente se somariam as duas distâncias ao horizonte. Com refração os raios seguem um caminho mais suave e ainda mais longo entre os dois objetos (pessoa e ilhota). Não achei rapidamente fórmula para essa distância, mas isso nem importa tanto. Eu quero parar para fazer as contas, mas suspeito que, se a Terra fosse plana, seria possível não só ver una ilhota a 47 km, mas também ver as montanhas do Atlas a partir do litoral brasileiro usando apenas um binóculo…

  3. Renato Ranzini Rodrigues disse:

    Vejam:

    “Resultado = Linha do horizonte: 8685.20 metros. Em 46914 metros ficam 114.7 abaixo”

    Ou seja, 114,7 metros da ilha ficam abaixo do horizonte. Qual a altura da ilha? O restante, não informado, fica acima. Simples.

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