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O improvável aconteceu: minhas alunas da PUCRS e o telefone

Fui aconselhado por amigos, Prof. Rolando Axt (professor aposentado do IF-UFRGS) e Dr. Franklin Marcantonio Cunha (médico, membro da Academia Riograndense de Letras, ocupante da cadeira Ramiz Galvão), a registrar duas histórias de sala de aula  que são a priori altamente improváveis.

Respondido por: Prof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/

Explicando sobre desvio padrão por telefone

Meu trabalho como professor do IF-PUCRS começou em 1976. Como havia feito meu mestrado em Física com uma dissertação em ensino de Física e tinha já alguns trabalhos publicados (1, 2) em Teoria da Medida Psicológica e Educacional, estava cedido por algumas horas da minha carga semanal de 24 h na PUCRS ao Programa de Pós-Graduação em Educação daquela universidade.

Junto com a querida amiga Profa. Marlene Grillo  ministrava uma disciplina de Medidas Educacionais em um curso de especialização por volta de 1980. A Marlene ensinava os fundamentos teóricos da construção de testes educacionais e eu conduzia um trabalho prático de análise de consistência interna com as alunas (eram apenas mulheres naquela turma). Quem tiver interesse em saber sobre este tipo de análise quantitativa pode acessar Validação de testes.

As alunas trabalhavam em dupla, fazendo todos os cálculos em uma planilha com respostas dadas a uma escala de atitude. Naquela época os cálculos eram feitos quase que manualmente, apenas com auxílio de precárias calculadoras eletrônicas.

Uma vez por semana eu me reunia com as alunas e as assessorava na feitura da análise estatística das respostas na escala de atitude.

Um dia em aula, duas alunas, depois que as interpelei sobre o desenvolvimento do trabalho, responderam-me:

– Tivemos dificuldades no cálculo do desvio padrão dos escores de atitude. Depois da explicação que tu nos deste por telefone conseguimos avançar no trabalho.

Eu estranhei a resposta pois tinha certeza de não ter dado qualquer orientação por telefone na semana anterior.

– Eu não lembro de ter falado com vocês por telefone. Como conseguiram o meu número já que a PUC não fornece telefone de professores?

Procuramos no guia telefônico de Porto Alegre. Encontramos um Silveira, Fernando (dr) e ligamos. Tu  atendeste, explicamos nossa dificuldade, e tu nos deste as explicações para seguirmos no trabalho.

Naquela época eu residia em São Leopoldo, na casa de meus pais, e o telefone estava em nome de meu pai. As alunas ficaram atônitas com minha resposta e se convenceram não ter falado por telefone comigo. Então lhes sugeri ligar para a pessoa em questão e esclarecer o ocorrido.

Semana seguinte elas relataram que a pessoa com quem haviam falado era professor de bioestatística e que achou natural responder por achar que elas eram suas alunas.

 

Quando duas alunas do IQ-PUCRS conversam por telefone e o professor as ouve em linha cruzada

Por volta de 1984 eu morava no bairro Partenon (PoA). Era final de semestre letivo, época de publicação das notas dos alunos, cerca das 13h30min e eu me preparava para ir para o IF-PUCRS quando meu telefone tocou. Ao atendê-lo percebi duas pessoas (alunas) conversando e a conversa foi mais ou menos a seguinte:

Fulana, vou te apanhar em seguida para irmos à PUC olhar nossas notas no Instituto de Química.

Está bem mas temos que ir no Instituto de Física para ver se nossas notas de Física II foram publicadas.

A conversa se encerrou por aí e elas não sabiam que eu estava na linha cruzada. A disciplina de Física II era obrigatória para as engenharias, química e física tendo muitas turmas. Eu lecionava em uma dessas tantas turmas.

Lá pelas 14h estava na sala dos professores do IF-PUCRS conversando com meu colega Délcio Basso quando na porta da sala apareceram duas alunas da minha turma e que eu sabia estarem cursando Química. Elas me perguntaram:

– Fernando, já publicaste nossas notas de Física II?

Eu, já rindo, respondi:

– Vocês falaram ao telefone às 13h30min! Ainda bem que não falaram mal do professor de Física II.

As alunas ficaram estupefatas  e depois riram também. Os três telefones, com prefixo 36, pertenciam à mesma central telefônica e não eram raras as linhas cruzadas. Extremamente improvável era uma ligação entre duas alunas  com uma  linha cruzada  para o professor de ambas. E mais improvável ainda é ser eu o professor. ?

 

 


6 comentários em “O improvável aconteceu: minhas alunas da PUCRS e o telefone

  1. Victor Hugo disse:

    Às vezes a vida nos presenteia com aquelas histórias pra serem contadas na mesa de bar e no CREF ?

  2. Luciano Marcelo Boeira disse:

    Sensacional esse Lang! Foi um dos melhores professores que tive na Física da UFRGS! Homenageado inesquecível (1998).

    Que beleza quando um improvável bom nos acontece!

    Abração

  3. Fabricio Scheffer - Fábris disse:

    Além de histórias maravilhosas, elas nos remetem a um passado que tenho saudades. Cálculos no “braço” e linhas cruzadas? Hoje a meninada não sabe mais o que é isso! Muito legal os textos, mas o primeiro me emocionou mais. Legal ver que os professores têm sempre à disposição para ajudar. Ele nem verificou se eram realmente alunas dele. E, me parece, que ajudaria de qualquer forma. Muito legal. Parabéns pelos textos.

  4. Fenomenal essas duas histórias altamente improváveis, contadas com leveza e graça, assim como todas as outras que você, Caro Prof. Fernando, conta! Interessante é que as duas envolviam alunos da mesma Universidade, o que torna mais improvável ainda. Obrigada pelo seu belo trabalho junto ao CREF! Sou sua fã (e meus alunos também)!

  5. irene disse:

    Eu também li , Fernando, e com surpresa, pois ao ler o título pensei que te referias ao telefone celular. Como tenho muitas histórias sobre alunos(as) e celular, fiquei imaginando se te acontecera algo parecido com os meus casos. Mas o teu é, realmente, muito mais interessante devido à época em que aconteceu.
    E que bela memória !
    Irene Strauch

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