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Copérnico NÃO aboliu e usou epiciclos!!!

Professor Lang da Silveira

O senhor poderia justificar sua afirmação, que vai contra o que aprendi, de que “Copérnico não tinha restrições ao uso de epiciclos e efetivamente os utilizou. Copérnico aboliu o equante!”  

Agradeço sua contribuição e obrigado pela contribuição dos comentários.

Respondido por: Prof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/

Os epiciclos e os excêntricos no sistema geoestático eram usados na descrição dos movimentos dos corpos celestes desde a Antiga Grécia, cumprindo o objetivo de descrever tais movimentos a partir de movimentos circulares (ou circunferenciais) com velocidades constantes.

epiciclo_excentrico

Ptolomeu (século II d.C.) introduziu o equante. A velocidade angular do centro do círculo menor é constante não em relação ao centro do deferente mas em relação a um ponto deslocado do centro e não coincidente com a posição da Terra.

equante

Copérnico (1473-1573) tinha sérias restrições ao equante mas não aos epiciclos e excêntricos. A sua teoria revolucionária colocou o Sol, ao invés da Terra,  estático  e próximo ao centro do universo (e não apenas o centro do sistema solar). A última esfera, a esfera das estrelas também era fixa e não mais móvel como no sistema geoestático.

Copérnico UTILIZOU EPICICLOS (e excêntricos) para dar conta dos movimentos celestes observados em detalhe. A seguir está um pequeno trecho da obra derradeira de Copénico, a “Revolução dos Orbes Celestes”, onde aparece um diagrama para a órbita da Terra e de Mercúrio.

O texto e o diagrama não deixam dúvidas que ele se vale tanto dos EPICICLOS como dos EXCÊNTRICOS (o Sol NÃO se encontra no centro de todas as órbitas planetárias mas próximo ao centro) para tratar do movimento de Mercúrio. O livro apresenta muitos outros diagramas para os planetas e para Lua, nos quais epiciclos e excêntricos são utilizados. Ou seja, apesar de o modelo copernicano explicar SEM epiciclos os movimentos retrógrados dos planetas no sistema de referência da Terra, no detalhe mais fino epiciclos e excêntricos foram amplamente utilizados por Copérnico para dar conta do movimento dos corpos celestes.

Adicionalmente, já no início da “Revolução dos orbes celestes” (página 513 do livro 16 dos Great Books da Brittanica), quando Copérnico está explicitando seus pressupostos, encontra-se o seguinte título para a seção 4:

4 – The movement of the celestial bodies is regular, circular, and everlasting – or else  compounded of circular movements.

Esse título pode ser traduzido como:

4 – O movimento dos corpos celestes é regular, circular, e eterno – ou também composto por movimentos circulares.

Como é bem sabido por nós, o epiciclo é uma composição de dois movimentos circulares.

Portanto, está equivocada a  versão  super simplificada do sistema copernicano (quando não explicita tal  super simplificação e a toma como sendo a verdade sobre o copernicanismo)  SEM o uso de epiciclos para dar conta do movimentos. Além de distorcer as ideias copernicanas,  ela serve à concepção errada de que o triunfo do modelo helioestático  se deu por ele ser mais simples do que o velho sistema geoestático, já que não utilizava os artifícios dos epiciclos e excêntricos.  

O triunfo da concepção revolucionária de Copérnico  sobre a da Terra imóvel (e não me refiro aqui às objeções religiosas!) foi um processo longo para o qual Galileu, Kepler, …  e inclusive Newton, no século seguinte ao de Copérnico, deram contribuições importantes. Trato especificamente da contribuição de Galileu no vídeo A Mensagem das Estrelas.

Infelizmente os textos didáticos de Astronomia apresentam apenas a versão super simplificada do sistema copernicano, distorcendo assim o trabalho de Copérnico. Igualmente NÃO destacam que o helioestatismo está, na sua origem, comprometido com uma “tremenda” premissa metafísica, a premissa de que o Sol é A Lâmpada do Universo (a luz estelar nesta concepção é oriunda do Sol, ou seja, as estrelas são iluminadas pela luz do Sol), somente lhe cabendo a posição central. Detalho melhor esta concepção em  A premissa metafísica da revolução Copernicana.

Vide as postagens que seguem

O planeta Terra é o centro do universo?

A teoria que defende ser o Sol o centro do universo é chamada …

Vide também os seguintes artigos:

 A invisibilidade dos pressupostos e das limitações da teoria Copernicana nos livros didáticos de Física

The Scientific Revolution: on Copernicus and the epicycles, Kepler and the elliptic orbit

“Docendo discimus.” (Sêneca)

 

Acessos entre 27 de maio de 2013 e novembro de 2017: 3309.


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