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Chuveiro elétrico: por que não levamos choque se água está em contato com a parte eletrificada do resistor de aquecimento?

Olá!
Se derrubamos um aparelho elétrico(ligado), por exemplo, numa banheira, podemos ser percorridos por uma corrente elétrica, pois a água contém alguns sais e estes melhoram a condução da corrente elétrica (que no caso seria uma corrente iônica). Porém, a “resistência elétrica” de um chuveiro também entra em contato com a água e por que não levamos uma descarga elétrica?
Essa questão está relacionada também a o que aconteceria se jogarmos uma grande quantidade de sais na caixa d’água. Levaríamos uma descarga elétrica, pela água, no chuveiro? Se a resposta for que o chuveiro “queimaria”, por qual razão?
Obrigada! Obs: acredito que essas perguntas sejam daquelas clássicas, porém nunca tenho uma resposta convincente. rsrsrsr. Um Abraço!

Respondido por: Prof. Renato Machado de Brito - Escola de Engenharia - UFRGS

A pergunta é recorrente.

 Parece que num filme, num dia destes alguém enfiou na água um secador de cabelos funcionando e matou quem estava na banheira…

 Bom, sabes bem que, pelos princípios da física, a pessoa só sentirá um choque elétrico se for percorrida por corrente elétrica de alguma intensidade (poucos miliampéres são suficientes e podem ser mortais).

 Então a resposta que sempre dou é que, se, em qualquer circunstância, houver uma diferença de potencial suficiente para estabelecer alguma corrente elétrica que percorra os tecidos do corpo e esta corrente for suficientemente grande pode haver choque elétrico.

 – Por que uma bateria de 12 volts não nos “dá choque” quando tocamos os seus bornes?

– Porque para que haja alguma corrente que implique risco para o nosso corpo é necessário uma diferença de potencial (voltagem ou tensão) muito maior – cerca de 50 volts pelo menos se estivermos com a pele seca e intacta.

– Por que um passarinho não leva choque quando pousa num fio de alta tensão?

– Porque não há diferença de potencial sobre o seu corpo.

 Na índia, onde os macacos circulam pelas redes elétricas da cidade, é comum que sejam eletrocutados ou mutilados porque tocam os seus membros, rabo ou focinho no segundo condutor quando estão empoleirados em um deles.

No caso específico dos chuveiros, a diferença de potencial da rede  elétrica estabelece uma corrente entre os terminais de seu próprio  resistor de aquecimento, e não pela água que, por mais condutora que  seja, representa uma resistência, de muito maior valor, em paralelo  com a primeira. Logo a corrente que circula pela água é mínima (vide mais em  Choque em chuveiros elétricos).

Também existe um condutor interno no chuveiro que fica imerso na água (sem nenhum contato aparente) que serve para conduzir ao (neutro), ou a um circuito de aterramento, qualquer fuga de corrente que circule pela água. Quanto mais nos afastarmos do resistor de aquecimento, menor será a corrente que circula pela água.

 O que poderia representar algum perigo é se o terminal elétrico da fase que alimenta o chuveiro ficasse permanentemente imerso na água, mesmo quando o chuveiro estivesse desligado. Porém isso não acontece, existe uma válvula de fluxo que desconecta a rede elétrica do resistor   quando o chuveiro é desligado.

 Os pequenos choques (leve formigamento) que se sentem em algumas  situações ao se tomar um banho de chuveiro são devidos às diferenças  de potencial entre nossos pés molhados e a manopla de ajuste do fluxo  de água. Para evitar estes choques, basta colocar um condutor conectado à manopla e o piso do banheiro. Pode até amarrar a  extremidade no tapete do box ou mesmo deixá-la em contato com a superfície molhada do piso. Assim reduzimos o nosso problema ao caso do passarinho na rede elétrica. Estamos sobre um mesmo fio, logo não há diferença de potencial entre nós e a manopla.

 Assim também, se houver um bom aterramento do chuveiro nunca vamos sentir choques, nem pela tubulação nem através da água, pois na água  que cai em nós não tem corrente circulando e nem mesmo que esteja em  contato com as extremidades do resistor de aquecimento, não se consegue estabelecer uma diferença de potencial sobre o nosso corpo  que determine uma corrente elétrica sensível. Claro o chuveiro,  presume-se que não seja de Alta Tensão!

 Agora vamos ao caso de um equipamento elétrico ligado entrar em contato com a água de um banho de imersão.

 Neste caso há contato do próprio condutor que alimenta o circuito com a água na qual supostamente estamos imersos. E pode haver proximidade bem acentuada. Seria como se tocássemos um condutor “vivo” estando imersos em água. Se a banheira for de um material isolante, o problema novamente se reduz ao caso do passarinho no fio. Mas podemos levar um choque se, estando imersos na água, tocarmos em alguma manopla externa, ralo metálico ou algum outro dispositivo da  banheira que produza o fechamento do circuito elétrico através de  algum dos nossos membros.  No mais nada aconteceria, a não ser a queima do equipamento por perda da isolação de seus condutores internos.

 O grande risco da eletricidade para alguém em contato com a água é haver condições de se estabelecer um circuito fechado entre a fonte  de tensão e o solo (aterramento). Assim jamais tente consertar uma bomba d’água (ou qualquer outro equipamento) sem desconectá-la  totalmente da rede elétrica. Não toque na carcaça de motores ou dispositivos elétricos não aterrados, principalmente se estiver de pés  descalços e molhado ou dentro d’água. Os eletricistas sempre utilizam sapatos com solado de borracha!!! Muito cuidado com máquinas de lavar  roupas e geladeiras que podem representar risco de choque a operadores  descalços em piso úmido, quando houver alguma falha de isolamento nos  seus motores (na praia o ar úmido salinizado é um ótimo destruidor de  isolamentos elétricos).

 Lembre-se só seremos vítimas de choques elétricos, se houver uma diferença de potencial próxima ou maior do que 50 volts sobre nós e se o nosso corpo for caminho para a corrente elétrica que eventualmente  circular.

 O assunto é polêmico, pois cada caso é um caso, mas acho que no geral era isso.

Outras questões relacionadas ao tema:

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Intensidade da corrente elétrica perigosa para humanos

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22 comentários em “Chuveiro elétrico: por que não levamos choque se água está em contato com a parte eletrificada do resistor de aquecimento?

  1. Jodney Santos Batista disse:

    Gostaria de saber se é possível um chuveiro,passou água p parte de cima, podemos levar choque,se isso acontecer?

  2. André disse:

    Puxa vida, muito obrigado por compartilhar tanto conteúdo de valor. Vou continuar seguindo o blog / site e compartilhando

  3. cristian lacerda pereira disse:

    Ótima explicação, obrigado pelo empenho em compartilhar seu conhecimento!!

  4. Raniely disse:

    Por que a água da chuva não nos da choque depois do contato com um raio? Ja que a água é um bom condutor de energia e espalha facilmente e energia de um raio se entrar em contato com um rio, piscina e etc??

  5. Carlos disse:

    Prezado professor,
    Pela explicação acima ficou uma dúvida! Porque um chuveiro com a resistência rompida não dá choque, já que os terminais (rede) estarão em contato direto com a água?

    • Fernando Lang disse:

      Pela mesma razão que uma “resistência” (resistor) íntegra, onde a mesma diferença de potencial elétrico de 127V ou 220V é aplicada à água pois ela a água está em contato com a “resistência”, não dá choque. A água sempre (com a “resistência” íntegra ou não) é um caminho de alta resistência sobre o qual se aplica também a tensão da rede.

  6. Claudemir disse:

    este artigo me ajudou muito, obrigado.

  7. Hamilton Klimach disse:

    De fato, o principal fator que evita choques é o condutor aterrado que fica entre a resistência e a saída da água, estabelecendo um potencial nulo neste ponto, que funciona como uma “barreira de potencial”.

  8. Cursos Online disse:

    Olá aqui é a Nathália Carvalho, eu gostei muito do seu artigo seu conteúdo vem me ajudando bastante, muito obrigada.

  9. Eduardo Gomes disse:

    Bom dia! Gostaria de saber uma coisa, comprei um chuveiro recentemente, por azar, o diafragma dele quando abro o registro não suporta a pressão da água e sai do lugar, fazendo com que a agua inunde a área da chave seletora de temperaturas e saia água por todos os lados do chuveiro. Ainda não tive coragem de ligá-lo na rede elétrica preocupado de que ele ofereça um risco de choque elétrico. Ontem resolvi colar literalmente o diafragma com uma cola TecBond, rsrs… Imagino que o diafragma não sairá do lugar tão cedo, mas se sair, corro o risco de ser eletrocutado, já que a água quando vaza, inunda a chave seletora e seus contatos? No meu caso, tenho um bom aterramento e meu quadro de distribuição elétrica tem um disjuntor de 40 amperes separado pra este chuveiro. Existe risco ou não?

  10. PAULO ROBERTO ESPÍNDOLA DE OLIVEIRA disse:

    Boa explicação para os assuntos abordados, gostei das perguntas e respostas, foram bem proveitosas, parabéns a todos que participaram desse assunto.

  11. Thiago disse:

    Bom dia,boa tarde, ou boa noite.
    Caro professor, eu gostaria de saber qual diferença entre as resistencias que precisam ser ligadas na agua, e outras não.
    ex: o rabo quente(mergulhão), o chuveiro…. precisam estar submersos na agua para ñ queimar porem
    aquecedor de ambiente, forno eletrico …. Ñ precisam estar submersos em agua.
    grato desde já

    • Fernando Lang disse:

      As resistências que ficam submersas atingiriam no ar temperaturas tão altas que fundiriam. Tal se deve à potência que elas dissipam em uma mesma extensão do fio: as submersas dissipam uma potência maior por unidade de comprimento do fio do que aquelas que podem ficar no ar.

  12. Poliana disse:

    Tecnicente falando, eu não sei se queima o oxigenio ou não mas como eu vivo no Chile e os invernos aqui são muito frios, é quase impossível não usar aquecedor elétrico. Constantemente eu estáva dormindo com ele ligado só que eu percebia que nos dias em que ele permanecia toda a noite ligado, praticamente na minha cara, eu amanhecia mais indisposta, quase sem energia como se alguma coisa estivesse sugando minhas energias, diferente dos dias que dormia sem o aquecedor.
    Então.. não sei exatamente como ele interfere na oxigenação do ambiente, mas que ele interfere, interfere!

  13. Junior disse:

    Olá, o aterramento de casa mesmo com o chuveiro desligado na chave, dá choque, esse tipo de aterramento existe, devo troca-lo? pois o mesmo com o disjuntor desligado ainda tem corrente que passa pelo neutro. E para variar, meu chuveiro estragou o diafragma ebta vazando água por cima na chave.

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