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ARISTARCO e as POSSÍVEIS ORIGENS de seu HELIOCENTRISMO

 

Nesta postagem o Prof. Alexandre Medeiros discute sobre as possíveis razões que levaram Aristarco de Samos a propor o seu heliocentrismo.

aristarco

Respondido por: Prof. Alexandre Medeiros - UFRPE

ARISTARCO e as POSSÍVEIS ORIGENS de seu HELIOCENTRISMO

Nossa amiga Claudia Lima, sempre fazendo suas perguntas, lança a seguinte questão na página do ECNM administrada pelo nosso amigo Ciclamio Barreto.

Diz Claudia: “Na série Cosmos, Sagan diz que Aristarco já sabia que a Terra era um planeta, e girava em torno do Sol com outros planetas, dois mil anos atrás. Como ele soube disso?”

Meus breves COMENTÁRIOS:

Eis um ótimo exemplo de uma questão histórica MUITO INTERESSANTE e também MUITO DIFÍCIL de ser respondida, Cláudia, pois da vasta obra de Aristarco, TUDO que nos restou foram apenas referências de terceiros e o original da sua obra “Sobre as Distâncias e os Tamanhos do Sol e da Lua”. E isso, por si só, é INSUFICIENTE para termos CERTEZA do PORQUE ele pensou assim e do COMO ele chegou a tal concepção.

aristarco
Mas, como bons detetives, os HISTORIADORES tentam juntar as poucas peças do quebra cabeças e operar uma RECONSTRUÇÃO RACIONAL que, com muita felicidade, possa lhes levar a IMAGINAR como TALVEZ ele tenha chegado às suas concepções. Infelizmente, a HISTÓRIA não é um livro didático que tem uma folha de respostas certas ao final.

Mas, vamos ao RACIOCINIO POSSÍVEL diante dos POUCOS DADOS que temos para tentarmos chegar, quem sabe, ao nosso precioso TALVEZ.

Aristarco é tido como tendo sido o primeiro homem a ter proposto uma TEORIA HELIOCÊNTRICA, dezoito séculos antes de Copérnico. IMAGINE! Ele nasceu na ilha de Samos, perto de Mileto, berço da ciência e da filosofia Jônica. POUCO SE SABE sobre as moradias subsequentes de Aristarco. Ele foi discípulo de STRATO DE LAMPSACOS, terceiro líder do Liceu fundado por Aristóteles. É mais provável que ele tenha estudado com Strato em Alexandria do que em Atenas; mas não sabemos ao certo. Tudo que podemos afirmar SEM ARROGÂNCIA INFANTIL é que TALVEZ ele tenha estudado mesmo com Strato. E isso pode ser importante na tentativa de tentar saber DE ONDE vieram suas IDEIAS.

A HISTÓRIA de ARISTARCO é LONGA e a tentativa de reconstrução racional das POSSÍVEIS ORIGENS de suas ideias é TORTUOSA e INCERTA; mas, não me furtarei de lhe contar o pouco que sei do assunto. Mas, farei isso mais tarde, pois agora tenho de sair. A vida não se resume a escrever no computador. Mais tarde, no máximo amanhã, eu retomo o papo sobre o pouco que conheço disso. Já contei esse troço altamente INTERPRETATIVO muitas vezes em minhas aulas de História da Física e também de Astronomia. Mas, realmente, nunca parei para escrever sobre isso. Se algum amigo quiser continuar, eu acrescento um pouco, se necessário, logo em seguida. MUITOS colegas da Física e da Astronomia conhecem bem essa história de TENTAR juntar as peças do quebra cabeças histórico em busca do nosso precioso TALVEZ.

Claudia: Eu já havia imaginado que na biblioteca de Alexandria existira muita coisa que só foi descoberta milênios depois.

Madge Bianchi: Estou ansiosa

Alexandre: Onde é que nós estávamos? Sim, na Biblioteca de Alexandria, Cláudia, deve ter TALVEZ existido muitas obras preciosas, mas lembre-se que ela foi incendiada pelos cristãos (isso mesmo, pelos cristãos) que na ocasião também mataram barbaramente Hipatia a sua sábia curadora. Dá até arrepios de lembrar como os cristãos assassinaram Hipatia. Tiraram suas roupas e arrancaram as suas carnes em praça pública com colheres. Tudo em nome de Jesus, mesmo. Religião é isso; mas, voltemos a ARISTARCO.

Não sabemos com CERTEZA as datas exatas relacionadas à vida de Aristarco; mas podemos inferir as datas aproximadas de suas atividades a partir das fichas de Ptolomeu (Syntaxis) sobre sua observação do solstício de verão em 280 aC e também devido à citação feita por Arquimedes de sua teoria heliocêntrica em um seu tratado (de Arquimedes) “O Contador de Areia” que se supõe ter Arquimedes escrito por volta de 216aC. Como se pode perceber, tentar montar esse QUEBRA CABEÇAS nos conduz a construir uma versão repleta de TALEVZ. E quem não gostar de TALVEZ que desista logo de tentar saber algo mais concerto sobre Aristarco. Ou então que ache uma “máquina do tempo” para lhe entrevistar.

O certo é que para seus contemporâneos, Aristarco era conhecido como “O Matemático”; e esse epíteto tem servido para distinguir o mesmo de outros tantos homens com o mesmo nome, mostrando que em matéria de determinação de tamanhos e distâncias astronômicas ele era realmente um matemático altamente competente. O arquiteto romano Vitruvio, tempos depois, listaria o nome de Aristarco como um dos seis homens de mais alta importância em todos os ramos da Matemática e que poderia aplicar seus talentos para fins práticos. Vitruvius também lhe atribui a invenção do “skaphē”, um tipo de relógio de Sol amplamente utilizado e que consiste em uma bacia hemisférica, com uma agulha erguida verticalmente no meio de sombras. Mas, vamos retornar ao PONTO da POSSÍVEL ORIGEM de seu HELIOCENTRISMO e deixemos de tanta Lenga-Lenga.

Sempre houve muitas ESPECULAÇÕES a respeito de porque um matemático respeitável como Aristarco deveria interessar-se sobre o tema da orientação física do sistema solar. Mas, pelos seus interesses matemáticos mais amplos, isso parece ocioso. Alguns historiadores têm apontado para a POSSÍVEL influência do Strato de Lampsacos, que era conhecido como “o físico.” Não há, entretanto, nenhuma evidência concreta a indicar que Aristarco tenha de fato criado suas teorias físicas a partir dos ensinamentos de Strato. Isso é um imenso TALVEZ. A suposição que nos parece mais provável é que ao lidar com TAMANHOS e DISTÂNCIAS astronômicas, ele tenha sido levado à apreciação das dimensões relativas do Sol e da Terra e dai TALVEZ tenha sido levado a propor um sistema heliocêntrico. Isso é a melhor das versões que conseguimos CONSTRUIR sobre porque TALVEZ ele tenha elaborado o seu heliocentrismo.

Certo é que os primórdios do heliocentrismo (o GERME do mesmo) podem ser rastreados aos PRIMEIROS PITAGÓRICOS, uma escola religiosa-filosofica que floresceu na Trácia e no sul da Itália, no século V aC. Uma tradição antiga atribui a Pitágoras (ca. 520 aC) a identificação da Estrela da Manhã e da Estrela da Tarde como sendo o mesmo corpo (Vênus). Filolau (cerca de 440 aC), um seguidor de Pitágoras, atribuiu à Terra, à Lua, ao Sol e aos planetas um movimento orbital sobre um FOGO CENTRAL, que ele chamou de “o coração do universo.” Nosso amigo Fernando Lang da Silveira conhece muito bem os detalhes dessa conversa sobre o Filolau. Eu até acho que eles estudaram juntos na mesma escola dominical na Igreja do avô do Pastor Adélio. 🙂 Mas, falando sério, de acordo com outra tradição, PARECE ter sido Hicetas, um contemporâneo de Filolau, quem primeiro considerou uma órbita circular para a Terra. Hicetas também foi creditado por muitos historiadores como o autor da manutenção da rotação do eixo da Terra e de um céu estacionário.

Outros historiadores (não dá para dar os detalhes de tudo isso, pois isso é só um bate papo no Facebook e não um curso de História da Física :)) TALVEZ mais confiáveis, no entanto, associam a ideia da rotação diária da Terra com Heraclides de Pontus, um discípulo de Platão, que também tem sido explicitamente creditado com a manutenção por volta de 340 aC, de uma órbita planetária de Vênus e, presumivelmente, com a de Mercúrio também em torno do Sol. o Fernando Lang também conhece bem o trabalho do Heraclides (que muito influenciou Tycho Brahe) e pode complementar muito que eu não disse.

TALVEZ alguns astrônomos gregos POSSAM TER tomado o próximo passo lógico para o desenvolvimento de uma hipótese heliocêntrica completa, propondo a teoria avançada nos tempos modernos por Tycho Brahe, que colocou os cinco planetas visíveis em movimento em torno do sol, e o sol, por sua vez, em movimento sobre a Terra. Vários estudiosos têm argumentado nessa linha de construção racional da História de que tal medida teria sido efetivamente tomada. O mais notável foi o célebre astrônomo italiano Schiaparelli, que atribuiu o sistema Tychonico diretamente a Heraclides; mas a EVIDÊNCIA de sua existência na antiguidade ainda está faltando. Tudo isso, entretanto, é apenas uma aparentemente boa conjectura que caracteriza a História, enquanto reconstrução racional, como o reino do TALVEZ.

CERTO é que autoridades antigas são unânimes em atribuir a Teoria Heliocêntrica a Aristarco. Arquimedes, que viveu pouco depois, afirma categoricamente que Aristarco publicou suas opiniões em um livro ou tratado no qual seus desenvolvimentos matemáticos o levaram à conclusão de que o Universo é muitas vezes maior do que aquela comumente aceita na época do próprio Arquimedes. Arquimedes, logo no início de seu célebre livro “O Contador de Areia”, fornece um breve resumo do argumento de Aristarco.

Segundo Arquimedes, as hipóteses de Aristarco eram as de que as estrelas fixas e o sol eram estacionários, que a Terra era mantida em uma órbita circular em torno do Sol, que fica no meio de sua órbita. E que a esfera das estrelas fixas, tendo o mesmo centro que o Sol, é tão grande em suas dimensões que o círculo sobre o qual ele supõe que a Terra seja mantida tem uma proporção tal que a distância das estrelas fixas ao centro da esfera suporta a sua superfície. Note a “concreteza” do modelo de Aristarco, segundo Arquimedes.

Plutarco (c. 100) é outro filósofo da Antiguidade que fornece um breve relato semelhante ao de Arquimedes a respeito da hipótese heliocêntrica de Aristarco, afirmando especificamente que a Terra gira ao longo da eclíptica e que ao mesmo tempo gira em torno de seu eixo.

ENTRETANTO, após relatar as visualizações de Aristarco, Arquimedes critica-o devido à sua criação de uma “proporção matematicamente impossível”, ao apontar que o centro da esfera não tem magnitude e que, portanto, não pode ter qualquer relação com a superfície da esfera. Arquimedes afirma que a observação de que o “Universo”, como era comumente concebido pelos astrônomos de sua época, é uma esfera cujo raio se estende a partir do centro do Sol para o centro da Terra. Assim, como um matemático que ele era, ele atribui ao também matemático Aristarco uma proporção que ele sente estar implícita na sua declaração, a saber, que a razão que a Terra mantem para o Universo, como é comumente concebida, é igual à razão que a esfera em que a Terra gira, no sistema de Aristarco, mantem em relação à esfera das estrelas fixas.

Historiadores modernos têm geralmente suposto (isso mesmo: SUPOSTO) que Aristarco não tinha a menor intenção de ter a sua proporção interpretada como uma afirmação matemática; que, em vez disso ele estava usando uma expressão convencional apenas para indicar a pequenez da órbita da Terra em relação à vastidão dos céus. Mas, isso é uma INTERPRETAÇÃO do passado e NÃO uma VERDADE DEFINITIVA. Tudo que podemos afirmar baseados nessas aparentemente sensatas reconstruções racionais é que TALVEZ a coisa tenha sido assim. Nada mais! ISSO é a HISTÓRIA. A CERTEZA é um CONTO da CAROCHINHA.

Sir Thomas Heath , por exemplo, um grande historiador da Ciência, aponta para expressões semelhantes nas obras de Euclides, Geminus, Ptolomeu, e Cleomedes, e na segunda hipótese do Tratado existente de Aristarco, já antes referido. Heath intuiu (ISSO mesmo: INTUIU) que a interpretação de Arquimedes foi um tanto arbitrária e sofística e que Aristarco teria introduzido a sua célebre declaração para explicar a incapacidade de observar a PARALAXE ESTELAR a partir de uma órbita terrestre.

Essa interpretação ou reconstrução racional de que TALVEZ a questão da PARALAXE tenha sido decisiva na construção do modelo heliocêntrico de Aristarco foi comentada também por outro grande historiador da Ciência, o Neugebauer, que defende que a proporção que Arquimedes atribui a Aristarco, pode ser tida
como matematicamente correta e fornecendo dimensões finitas para a esfera das estrelas fixas. Assim, o raio da Terra seria tão pequeno em comparação com a distância do Sol que nenhuma paralaxe diária do Sol seria perceptível.

Há MUITO mais coisas possíveis de se considerar para se tentar responder de forma interpretativa, diante dos poucos dados disponíveis, como e porque TALVEZ Aristarco tenha pensado como pensou. O breve espaço desses comentários não me permite avançar mais. Certo é que esse papo poderia facilmente dar um curso até mesmo de 60 horas para se tentar saber como TALVEZ Aristarco pensou como pensou. É difícil? Sim! MUITO! Mas, ISSO é a HISTÓRIA. O RESTO é um mero CONTO de FADAS cheio de PSEUDO CERTEZAS de quem pensa que pode descobrir a VERDADE OBJETIVA sobre o passado. Se necessário, eu posso tentar complementar um pouco mais, do pouco que conheço sobre o assunto; mas prefiro que outros também coloquem a sua colher no referido tema levantado sobre COMO e PORQUE Aristarco bolou o seu Sistema Heliocêntrico.

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Comentários no Facebook

Fernando Lang da Silveira – Alexandre Medeiros: a concepção de que sendo o Sol o astro mais importante é ele que deve estar no centro não explica a inspiração de Aristarco como heliocentrista? A sua determinação do diâmetro do Sol como cerca de 7 vezes o diâmetro da Terra vai ao encontro desta concepção.

Alexandre Medeiros – Apenas em parte, Fernando; no tocante à sua metafísica que nós sabemos ser pitagórica e do fato de que sabemos que ela deriva de Filolau. Mas, Aristarco era um baita matemático. Acho que TALVEZ o argumento da PARALAXE tenha sido decisivo. Mas, eu escrevi “TALVEZ”. Lendo o texto dele (em inglês), o texto do Arquimedes e o texto do Heath, eu ACHO que é o que se pode de melhor inferir ou INTUIR. Mas, a RESPOSTA CERTA eu NÃO sei.

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