IDENTIDADE E DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DE PROFESSORAS DE CIÊNCIAS COMO UMA QUESTÃO DE GÊNERO: O CASO DE NATÁLIA FLORES

Adriana Martini Martins, Paulo Lima Junior

Resumo


Questões de gênero são tipicamente negligenciadas na formação de professores de Ciências. Este artigo apresenta uma investigação narrativa, inspirada nos retratos sociológicos, da história de vida de Natália Flores, uma professora em formação inicial que resistiu às reprovações e à pressão por excelência que desafiam a maioria dos estudantes de Ciências. A partir de entrevistas individuais, e com base na distinção entre conhecimento conectado e separado, proposto por teorias feministas, é possível situar a constituição da identidade profissional de Natália no conflito normativo entre ser mulher e viver no Instituto de Física de uma Universidade Federal. Com uma infância marcada por relações de intimidade e sensibilidade, Natália desenvolveu o que chamamos de disposição à conexão. Por meio dessa disposição, suas escolhas e dilemas podem ser interpretados como questões de gênero. Em outras palavras, sua escolha pela Licenciatura em Física, a crise para adaptar-se ao curso, seu baixo senso de autoeficácia e o sentido que ela atribui a ser professora são experiências marcadas pela maneira como Natália aprendeu a ser mulher. Por outro lado, considerando aspectos de classe presentes na história de Natália, comuns também aos homens, esperamos que eles se identifiquem com algumas das experiências analisadas. Implicações para pensar a vida e a formação de professores nos Institutos de Física como uma questão de gênero são discutidas.


Palavras-chave


Desenvolvimento profissional; Identidade; Formação de professores; Gênero; Educação Científica

Texto completo:

PDF

Referências


Autores. ... Ensaio: Pesquisa em Educação em Ciências, 2020.

Alonso, G., & Díaz, R. (2012). Reflexiones acerca de los aportes de las epistemologías feministas y descoloniales para pensar la investigación social. Debates Urgentes, 1(1), 75–98.

Anderhag, P., Hamza, K. M., & Wickman, P.-O. (2015). What Can a Teacher Do to Support Students’ Interest in Science? A Study of the Constitution of Taste in a Science Classroom. Research in Science Education, 45(5), 749–784. https://doi.org/10.1007/s11165-014-9448-4

Anderhag, P., Wickman, P.-O., & Hamza, K. M. (2015). Signs of taste for science: a methodology for studying the constitution of interest in the science classroom. Cultural Studies of Science Education, 10(2), 339–368. https://doi.org/10.1007/s11422-014-9641-9

Archer, L., Dewitt, J., Osborne, J., Dillon, J., Willis, B., & Wong, B. (2012). “Balancing acts’’’: Elementary school girls’ negotiations of femininity, achievement, and science.” Science Education, 96(6), 967–989. https://doi.org/10.1002/sce.21031

Archer, L., Dewitt, J., & Willis, B. (2014). Adolescent boys’ science aspirations: Masculinity, capital, and power. Journal of Research in Science Teaching, 51(1), 1–30. https://doi.org/10.1002/tea.21122

Beauchamp, C., & Thomas, L. (2009). Understanding teacher identity: An overview of issues in the literature and implications for teacher education. Cambridge Journal of Education, 39(2), 175–189. https://doi.org/10.1080/03057640902902252

Belenky, M. F., Clinchy, B. M., Goldberger, N. R., & Tarule, J. M. (1986). Women’s ways of knowing: the development of self, voice, and mind. New York: Basic Books.

Bourdieu, P. (1990). The logic of practice. Stanford: Stanford University Press.

Bourdieu, P. (2002). A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

Bourdieu, P. (2007). A distinção: critica social do julgamento. Porto Alegre: ZOUK.

Brand, B. R., & Glasson, G. E. (2004). Crossing cultural borders into science teaching: Early life experiences, racial and ethnic identities, and beliefs about diversity. Journal of Research in Science Teaching, 41(2), 119–141. https://doi.org/10.1002/tea.10131

Brotman, J. S., & Moore, F. M. (2008). Girls and science: A review of four themes in the science education literature. Journal of Research in Science Teaching, 45(9), 971–1002. https://doi.org/10.1002/tea.20241

Buccheri, G., Gürber, N. A., & Brühwiler, C. (2011). The impact of gender on interest in science topics and the choice of scientific and technical vocations. International Journal of Science Education, 33(1), 159–178. https://doi.org/10.1080/09500693.2010.518643

Butler, J. (1990). Gender trouble: feminism and the aubversion of identity. London: Routledge.

Butler, J. (2004). Undoing gender. London: Routledge.

Capobianco, B. M. (2007). Science teachers’ attempts at integrating feminist pedagogy through collaborative action research. Journal of Research in Science Teaching, 44(1), 1–32. https://doi.org/10.1002/tea.20120

Carlone, H. B., Johnson, A., & Scott, C. M. (2015). Agency amidst formidable structures: How girls perform gender in science class. Journal of Research in Science Teaching, 52(4), 474–488. https://doi.org/10.1002/tea.21224

Chanter, T. (2011). Gênero: Conceitos-chave em filosofia. Porto Alegre: Artmed.

Collins, P. H. (2000). Gender , Black Feminism , and Black Political Economy. In American Academy of Political and Social Science: The Annals of the American Academy of Political and Social Science (Vol. 568, pp. 41–53). Retrieved from http://www.jstor.org/stable/104947

Connelly, F. M., & Clandinin, D. J. (1990). Stories of Experience and Narrative Inquiry. Educational Researcher, 19(5), 2–14. https://doi.org/10.3102/0013189X019005002

Contreras, J. (2002). Autonomia de professores. São Paulo: Cortez.

Danielsson, A. T. (2014). In the physics class: University physics students’ enactment of class and gender in the context of laboratory work. Cultural Studies of Science Education, 9(2), 477–494. https://doi.org/10.1007/s11422-012-9421-3

Deneroff, V. (2016). Professional development in person: identity and the construction of teaching within a high school science department. Cultural Studies of Science Education, 11(2), 213–233. https://doi.org/10.1007/s11422-013-9546-z

Dominguez, C. R. C., Viviani, L. M., Cazetta, V., Guridi, V. M., Faht, E. C., Pioker, F. C., & Cubero, J. (2015). Professional choices and teacher identities in the Science Teacher Education Program at EACH/USP. Cultural Studies of Science Education, 10(4), 1189–1213. https://doi.org/10.1007/s11422-014-9650-8

Dori, Y. J., Zohar, A., Fischer-Shachor, D., Kohan-Mass, J., & Carmi, M. (2018). Gender-fair assessment of young gifted students’ scientific thinking skills. International Journal of Science Education, 40(6), 595–620. https://doi.org/10.1080/09500693.2018.1431419

Enyedy, N., Goldberg, J., & Welsh, K. M. (2006). Complex dilemmas of identity and practice. Science Education, 90(1), 68–93. https://doi.org/10.1002/sce.20096

Fernandes, J., Ueno Guimarães, M. H., Robert, A., & Passos, M. M. (2020). Estudo da evasão dos estudantes de Licenciatura e Bacharelado em Física: uma análise à luz da Teoria do Sistema de Ensino de Bourdieu. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, 37(1), 105–126. https://doi.org/10.5007/2175-7941.2020v37n1p105

Geelan, D., Mensah, F. M., Rahm, J., & Maulucci, M. R. (2010). Roles, caring and learning to teach science. Cultural Studies of Science Education, 5(3), 649–663. https://doi.org/10.1007/s11422-009-9247-9

Gilligan, C. (1982). In a different voice: psychological theory and women’s development. Cambridge: Harvard University Press.

Glackin, M. (2016). ‘Risky fun’ or ‘Authentic science’? How teachers’ beliefs influence their practice during a professional development programme on outdoor learning. International Journal of Science Education, 38(3), 409–433. https://doi.org/10.1080/09500693.2016.1145368

Gouw, A. M. S. (2013). Um breve panorama do projeto internacional “the relevance of science education” (ROSE). In N. Bizzo & G. Pellegrini (Eds.), Os jovens e a ciência (pp. 13–30). Curitiba: CRV.

Grimes, N. K. (2013). The nanny in the schoolhouse: The role of femme-Caribbean identity in attaining success in urban science classrooms. Cultural Studies of Science Education, 8(2), 333–353. https://doi.org/10.1007/s11422-012-9476-1

Ha, M., Haury, D. L., & Nehm, R. H. (2012). Feeling of certainty: Uncovering a missing link between knowledge and acceptance of evolution. Journal of Research in Science Teaching, 49(1), 95–121. https://doi.org/10.1002/tea.20449

Haraway, D. (1995). Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, 5, 7–41.

Harding, S. (1986). The science question in feminism. Ithaca: Cornell University Press.

Hazari, Z., Sonnert, G., Sadler, P. M., & Shanahan, M.-C. (2010). Connecting high school physics experiences, outcome expectations, physics identity, and physics career choice: A gender study. Journal of Research in Science Teaching, 47(8), 978–1003. https://doi.org/10.1002/tea.20363

Ketzer, P. (2017). Como pensar uma epistemologia feminista? Surgimento, repercussões e problematizações. Argumentos, 9(18), 95–106.

Kozoll, R. H., & Osborne, M. D. (2006). Developing a deeper involvement with science: Keith’s story. Cultural Studies of Science Education, 1(1), 161–187. https://doi.org/10.1007/s11422-005-9004-7

Lahire. (2004). Retratos sociológicos: disposições e variações individuais. Porto Alegre: Artmed.

Lahire, B. (2005). Patrimónios individuais de disposições: Para uma sociologia à escala individual. Sociologia, Problemas e Praticas, 49, 11–42. https://doi.org/10.1017/CBO9781107415324.004

Lahire, B. (2006). A cultura dos indivíduos. Porto Alegre: Artmed.

Lima Junior, P. (2018). Trajetórias dos professores de ciências em tempos de proletarização: família e vocação docente. In L. Massi, P. Lima Junior, & E. Barolli (Eds.), Retratos da docência: contextos, saberes e trajetórias (pp. 435–459). Araraquara: Letraria.

Lima Junior, P., Fraga Junior, J. C., Andrade, V. C., & Bernardino, P. R. P. (2020). A integração dos estudantes de periferia no curso de Física: razões institucionais da evasão segundo a origem social. Ciência & Educação, 26.

Lima Junior, P., & Massi, L. (2015). Retratos sociológicos : uma metodologia de investigação para a pesquisa em educação. Ciência & Educacão, 21(3), 559–574.

Longino, H. E., & Lennon, K. (1997). Feminist epistemology as a local epistemology. Aristotelian Society Supplementary Volume, 71(1), 19–35. Retrieved from https://academic.oup.com/aristoteliansupp/article-lookup/doi/10.1111/1467-8349.00017

Louro, G. L. (2003). Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes.

Rezende, F., & Ostermann, F. (2019). Hegemonic and counter-hegemonic discourses in science education from the perspective of a post-critical curriculum theory. Cultural Studies of Science Education. https://doi.org/10.1007/s11422-019-09945-8

Rodrigues, C., & Heilborn, M. L. (2014). Construindo Vera Cruz e desconstruindo gênero: aproximações entre Pedro Almodóvar e Judith Butler. Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro), (16), 73–85. https://doi.org/10.1590/S1984-64872014000100005

Rosa, K. (2018). Science identity possibilities: a look into Blackness, masculinities, and economic power relations. Cultural Studies of Science Education, 13(4), 1005–1013. https://doi.org/10.1007/s11422-018-9859-z

Roth, W.-M. (2008). Bricolage, métissage, hybridity, heterogeneity, diaspora: Concepts for thinking science education in the 21st century. Cultural Studies of Science Education, 3(4), 891–916. https://doi.org/10.1007/s11422-008-9113-1

Rushton, E. A. C., & Reiss, M. J. (2019). From science teacher to ‘teacher scientist’’: exploring the experiences of research-active science teachers in the UK.’ International Journal of Science Education, 41(11), 1541–1561. https://doi.org/10.1080/09500693.2019.1615656

Shanahan, M.-C. (2009). Identity in science learning: Exploring the attention given to agency and structure in studies of identity. Studies in Science Education, 45(1), 43. https://doi.org/10.1080/03057260802681847

Sinnes, A. T., & Løken, M. (2014). Gendered education in a gendered world: Looking beyond cosmetic solutions to the gender gap in science. Cultural Studies of Science Education, 9(2), 343–364. https://doi.org/10.1007/s11422-012-9433-z

Sjøberg, S., & Schreiner, C. (2010). The ROSE project: an overview and key findings. Oslo.

Stoet, G., & Geary, D. C. (2018). The gender-equality paradox in science, technology, engineering, and mathematics education. Psychological Science, 29(4), 581–593.

Vincent-Ruz, P., & Schunn, C. D. (2017). The increasingly important role of science competency beliefs for science learning in girls. Journal of Research in Science Teaching, 54(6), 790–822. https://doi.org/10.1002/tea.21387

Watanabe, G., & Gurgel, I. (2017). As Marcas Sociais Deixadas Pelas Escolas Em Nossos Professores De Ciências: a Questão Da Violência Simbólica. Revista Contexto & Educação, 31(99), 116. https://doi.org/10.21527/2179-1309.2016.99.116-148

Wilson, R. E., & Kittleson, J. (2013). Science as a classed and gendered endeavor: Persistence of two white female first-generation college students within an undergraduate science context. Journal of Research in Science Teaching, 50(7), 802–825. https://doi.org/10.1002/tea.21087

Zembylas, M. (2004). Young children’s emotional practices while engaged in long-term science investigation. Journal of Research in Science Teaching, 41(7), 693–719. https://doi.org/10.1002/tea.20023

Zohar, A. (2006). Connected knowledge in science and mathematics education. International Journal of Science Education, 28(13), 1579–1599. https://doi.org/10.1080/09500690500439199




DOI: http://dx.doi.org/10.22600/1518-8795.ienci2020v25n3p616

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.

Revista Investigações em Ensino de Ciências (IENCI) - ISSN: 1518-8795 

Creative Commons License