COMPREENSÕES DE ALUNOS DE NÍVEL MÉDIO SOBRE DESCOBERTA: DISCUSSÕES EM TORNO DO EPISÓDIO DA DESCOBERTA DA RADIOATIVIDADE EM UMA SEQUÊNCIA DE ENSINO E APRENDIZAGEM

Jennyfer Alves Rocha, Adjane da Costa Tourinho e Silva

Resumo


Na perspectiva da alfabetização científica, possibilitar a compreensão da Natureza da Ciência (NdC) tem sido um propósito assumido na comunidade de pesquisa, mobilizando uma discussão recorrente sobre currículos eficientes no sentido de proporcionar aos alunos a percepção de relevantes aspectos do processo de construção e legitimação das concepções científicas. Nesse sentido, a Abordagem Contextual é percebida como uma proposta promissora. Seguindo essa tendência, este artigo apresenta uma análise das discussões realizadas por alunos do Nível Médio da Educação Básica, junto à professora, sobre a descoberta da radioatividade, durante a aplicação de uma Sequência de Ensino e Aprendizagem (SEA) estruturada de acordo com a Abordagem Contextual. A análise busca evidenciar as distintas concepções dos alunos acerca da descoberta na ciência, que emergem ao longo das interações. A SEA compôs-se de nove aulas, que foram trabalhadas durante seis encontros. A discussão retratada no artigo acontece na aula 05, desenvolvida no terceiro encontro da SEA. Os dados registrados em vídeo foram mapeados dando origem a episódios, os quais foram definidos e transcritos, de acordo com a metodologia apresentada por Mortimer, Massicame, Tiberghien e Buty. A observação dos episódios possibilitou selecionar aqueles mais representativos da evolução das ideias dos alunos e submetê-los à Análise Textual Discursiva (ATD). A análise revela três principais categorias relacionadas ao conceito de descoberta: visualização do fenômeno, elaboração conceitual e construção coletiva. Verifica-se o compromisso dos alunos com uma concepção linear e empirista de ciência. Todavia, é possível perceber, ao longo da aula, a evolução da concepção de descoberta, aliada ao distanciamento de estereótipos a respeito da Natureza da Ciência. A discussão acerca das concepções dos alunos foi desenvolvida com referência em Kuhn, Alfonso-Goldfarb, Mathews, Cobern, Loving e Niaz.


Palavras-chave


Sequência de Ensino-Aprendizagem; Abordagem Contextual; Radioatividade

Texto completo:

PDF

Referências


Aikenhead, G. S. (1985). Collective decision making in the social context of science. Science Education, 69(4). 453-475. https://doi.org/10.1002/sce.3730690403

Aikenhead, G. S. (1990). Science-technology-society. Science education development: from curriculum policy to student learning. In Atas da Conferência Nacional sobre o Ensino de Ciências Para o Século XXI: ACT – Alfabetização em ciência e tecnologia. Brasília, DF. Recuperado de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S1413-2478200700030000700001&lng=pt

Alfonso-Goldfarb, A. M. (1994). O que é História da Ciência. São Paulo, SP: Editora Brasiliense.

Alfonso-Goldfarb, A. M. (2001). Da Alquimia à Química. (2a ed.). São Paulo, SP: Landy.

Andery, M. A., Micheletto, N., Sério, T. N. P., Rubano, D. R., Moroz, M., Pereira, M. E., Gioia, S. C., Gianfaldoni, M., Savioli, M. R., & Zanoto, M. L. (1996). Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica. (6a ed.). São Paulo, SP: Educ/Espaço e Tempo.

Barp, E. (2013). Contribuições da História da Ciência para o Ensino da Química: uma proposta para trabalhar o tópico radioatividade. História da Ciência e Ensino: construindo interfaces, 8, 50-67. Recuperado de https://revistas.pucsp.br/hcensino/article/view/17413/12955.

Batista, C. A. S., & Siqueira, M. (2017). A inserção da Física Moderna e Contemporânea em ambientes reais de sala de aula: uma sequência de ensino-aprendizagem sobre a radioatividade. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, 34(3), 880-902. https://doi.org/10.5007/2175-7941.2017v34n3p880

Cestari, D. H., Jr. (2015). O conceito de descoberta científica: Os raios de Roentgen como estudo de caso. (Dissertação de mestrado). Mestrado em História da Ciência, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP. Recuperado de: https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/13317/1/Decio%20Hermes%20Cestari%20Junior.pdf

Cestari Jr., D. H., & Beltran, M, H. R. (2016). Conceito de descoberta científica: os livros de divulgação científica e o senso comum. In Anais do XVIII Encontro Nacional de Ensino de Química - XVIII ENEQ. (pp. 1-8). Florianópolis, SC. Recuperado de http://www.eneq2016.ufsc.br/anais/resumos/R1267-2.pdf

Chassot, A. (1995). Raios X e radioatividade. Química Nova na Escola, (2), 19-22.

Cobern, W. W., & Loving, C. C. (2001). Defining “Science” in a multicultural world: implications for Science Education. Science Education, 85, 50-67. https://doi.org/10.1002/1098-237X(200101)85:1<50::AID-SCE5>3.0.CO;2-G

Cordeiro, M. D., & Peduzzi, L. O. Q. (2011). Aspectos da natureza da ciência e do trabalho científico no período inicial de desenvolvimento da radioatividade. Revista Brasileira de Ensino de Física, 33(3), 1-36. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rbef/v33n3/19.pdf

Eichler, M., Del Pino, J.C., & Junges, F. (2006). Cidade do átomo: debate escolar sobre energia nuclear. Física na Escola, 7(1), 17-22.

Eichler, M., Junges, F., & Del Pino, J.C. (2005). O papel do jogo no ensino de radioatividade: os softwares Urânio-235 e a Cidade do Átomo. Novas Tecnologias na Educação, 3(1), 1-13. Recuperado de https://seer.ufrgs.br/renote/article/view/13800/7997

Gatti, S. R. T., & Nardi, R. (2016). A História e a Filosofia da Ciência no Ensino de Ciências: a pesquisa e suas contribuições para a prática pedagógica em sala de aula. São Paulo: Escrituras.

Hygino, C. B., Souza, N. S., & Linhares, M. P. (2013). Episódios da história da ciência em aulas de física com alunos jovens e adultos: uma proposta didática articulada ao método de estudo de caso. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias. 12(1), 1-23. Recuperado de http://reec.uvigo.es/volumenes/volumen12/REEC_12_1_1_ex607.pdf

Hodson, D. (1994). Hacia um enfoque más crítico del trabajo de laboratório. Enseñanza de las Ciências, 12(3), 299-313.

Kelly, G. J., & Duschl, R. A. (2002). Toward a research agenda for epistemological studies in science education. In Proceeding of Annual Meeting of the National Association of Research in Science Teaching-NARST. New Orleans, LA, United States of America.

Kelly, G. J. (2008). Inquiry, activity, and epistemic practice. In R. A. Duschl & R. E. Grandy (Eds.), Teaching scientific inquiry: recommendations for research and implementation (pp. 99–117). Rotterdam, The Netherlands: Sense Publishers.

Kuhn, T. S. (1997). A estrutura das revoluções científicas. (5a ed.). São Paulo, SP: Perspectiva.

Latour, B. (1987). Science in action: how to follow scientists and engineers through society. Cambridge, United States of America: Harvard University Press.

Lemke, J. L. (1990). Talking science: language, learning and values. Norwood, United States of America: Ablex.

Lynch, M. E., & Woolgar, S. (Orgs.). (1990). Representation in scientific practice. Cambridge, United States of America/London, England: MIT Press.

Machado, D. I., & Nardi, R. (2007). Construção e validação de um sistema hipermídia para o ensino de Física Moderna. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias, 6(1), 91-116. Recuperado de http://reec.uvigo.es/volumenes/volumen6/ART6_Vol6_N1.pdf

Marques, D. M., & Pires, K. L. (2017). Da radioatividade ao modelo atômico nuclear: uma proposta didático-metodológica. História da Ciência e Ensino: construindo interfaces, 16, 1-1. https://doi.org/10.23925/2178-2911.2017v16i1a10

Martins, R. A. (1990). Como Becquerel não descobriu a radioatividade. Caderno Catarinense de Ensino de Física, 7(n. esp.), 27-45. Recuperado de https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/10061/14903

Martins, R. A. (2003). As primeiras investigações de Marie Curie sobre elementos radioativos. Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência,1(1), 29-41. Recuperado de http://www.ghtc.usp.br/server/pdf/curie-a1.pdf

Matthews, M. R. (1995). História, Filosofia e Ensino de Ciências: a tendência atual de reaproximação. Caderno Catarinense de Ensino de Física, 12(3), 164-214. Recuperado de https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/7084

Matthews, M. R. (2002). O tempo e o ensino de ciência: como o ensino de História e Filosofia do movimento pendular pode contribuir para a alfabetização científica. In W. J. Silva Filho (Org.), Epistemologia e Ensino de Ciências (pp. 31-48). Salvador, BA: Arcádia.

Miller, J. D. (1983). Scientific Literacy: A Conceptual & Empirical Review. Daedalus,112(2), 29-48.

Moraes, R., & Galiazzi, M. C. (2006). Análise textual discursiva: processo reconstrutivo de múltiplas faces. Ciência & Educação, 12(1), 117-128. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-73132006000100009

Moraes, R. (2003). Uma tempestade de luz: a compreensão possibilitada pela análise textual discursiva. Ciência & Educação (Bauru), 9(2), 191-211. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-73132003000200004

Mortimer, E. F., & Scott, P. H. (2002). Atividade discursiva nas salas de aula de ciências: uma ferramenta sociocultural para analisar e planejar o ensino. Investigações em Ensino de Ciências, 7(3), 283-306. Recuperado de https://www.if.ufrgs.br/cref/ojs/index.php/ienci/article/view/562

Mortimer, E. F., Massicame, T., Tiberghien, A., & Buty. C. (2007). Uma metodologia para caracterizar os gêneros de discurso como tipos de estratégias enunciativas nas aulas de ciências. In R. Nardi, (Org.), A pesquisa em ensino de ciência no Brasil: alguns recortes (pp. 53-94). São Paulo, SP: Escrituras.

Mortimer, E. F. (1995). Concepções Atomistas dos Estudantes. Química Nova na Escola, (1), 23-26. Recuperado de http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc01/aluno.pdf

Niaz, M. (2001). Understanding Nature of Science as progressive transitions in heuristic principles. Science Education, 85(6), 684 – 690. https://doi.org/10.1002/sce.1032

Oki, M. C. M., & Moradillo, E. F. (2008). O Ensino de História da Química: contribuindo para a compreensão da Natureza da Ciência. Ciência e Educação (Bauru), 14(1), 67-88. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-73132008000100005

Ortiz, E., & Silva, M. R. (2016). O Uso de abordagens da História da Ciência no Ensino de Biologia: uma proposta para trabalhar a participação da cientista Rosalind Franklin na construção do modelo da dupla hélice do DNA. Investigações em Ensino de Ciências, 21(1),106-123. http://dx.doi.org/10.22600/1518-8795.ienci2016v21n1p106

Pelicho, A. F. (2009). Irradiando conhecimento: uma abordagem da radioatividade para o Ensino Médio. In Anais do 1º Congresso Paranaense de Educação em Química - 1º CPEQUI (pp 01-09). Londrina, PR. Recuperado de www.uel.br/eventos/cpequi/Completospagina/18154845420090611.pdf

Pinto, G. T., & Marques, D. M. (2010). Uma proposta didática na utilização da História da Ciência para a primeira série do Ensino Médio: a radioatividade e o cotidiano. História da Ciência e Ensino, 1, 27-57. Recuperado de https://revistas.pucsp.br/index.php/hcensino/article/view/3024

Reis, A. S., Silva, N. D. B., & Buza, R. G. C. (2012). O uso da ciência como estratégia metodológica para aprendizagem do Ensino de Química e Biologia na visão dos professores do Ensino Médio. História da Ciência e Ensino, 5, 01-12. Recuperado de https://revistas.pucsp.br/index.php/hcensino/article/view/9193

Reis, N. A. (2017). Abordagem Contextual no âmbito do processo formativo do PIBID. (Dissertação de mestrado). Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, SE. Recuperado de http://ri.ufs.br/jspui/handle/riufs/5123

Schwab, J. J. (1962). The teaching of science as inquiry. In J. J. Schwab &. P. F. Brandwein (Eds.). The teaching of science (pp 3-103). Cambridge, United States of America: Harvard University Press.

Shapin, S., & Schaffer, S. (1985). Leviathan and the air-pump: Hobbes, Boyle, and the experimental life. Princeton, United States of America: Princeton University Press.

Silva, A. C. T. (2008). Estratégias enunciativas em salas de aula de química: contrastando professores de estilos diferentes. (Tese de doutorado). Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG. Recuperado de http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/FAEC-84KND6

Silva, A. C. T., & Mortimer, E. F. (2010). Caracterizando estratégias enunciativas em uma sala de aula de química: aspectos teóricos e metodológicos em direção à configuração de um gênero do discurso. Investigações em Ensino de Ciências, 15(1), 121-153. Recuperado de

https://www.if.ufrgs.br/cref/ojs/index.php/ienci/article/view/318/205

Sousa, R. S., & Galiazzi, M. C. (2016). Compreensão acerca da Hermenêutica na Análise Textual Discursiva: marcas teórico-metodológicas à investigação. Revista Contexto & Educação, 31(100), 33-55. Recuperado de https://www3.ufpe.br/moinhojuridico/images/pesquisa/09%20atd%20e%20ad.pdf

Souza, V. C. A., & Justi, R. (2012). Diálogos possíveis entre o ensino fundamentado em modelagem e a História da Ciência. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias. 11(2), 385-405. Recuperado de http://reec.uvigo.es/volumenes/volumen11/REEC_11_2_7_ex565.pdf

Teixeira, E. S., Freire Jr., O., & Greca, I. (2015). La enseñanza de la gravitación universal de Newton orientada por la Historia y la Filosofía de la Ciencia: una propuesta didáctica con un enfoque en la argumentación. Enseñanza de las Ciencias, 33(1), 205-223. Recuperado de https://www.raco.cat/in ex.php/Ensenanza/article/view/288579

Vasconcelos, F. C. G. C., & Leão, M. B. C. (2012). Utilização de recursos audiovisuais em uma estratégia flexquest sobre radioatividade. Investigações em Ensino de Ciências, 17(1), 37-58. Recuperado de https://www.if.ufrgs.br/cref/ojs/index.php/ienci/article/view/206/140

Vital, A., & Guerra, A. (2016). Textos para ensinar física: princípios historiográficos observados na inserção da História da Ciência no ensino. Ciência & Educação, 22(2), 351-370. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/ciedu/v22n2/1516-7313-ciedu-22-02-0351.pdf




DOI: http://dx.doi.org/10.22600/1518-8795.ienci2019v24n2p56

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.

Revista Investigações em Ensino de Ciências (IENCI) - ISSN: 1518-8795 

Creative Commons License