FIS02012 - Cosmologia e Relatividade
Profa. Thaisa
Storchi Bergmann
2) Curvatura
e métrica (segundo Barbara Ryden)
Comecemos com a
descrição da curvatura em espaços bidimensionais:
1)
Plano: a geodésica é uma linha reta. Um triângulo construído unindo três
pontos com geodésicas, tem a soma dos ângulos internos iguais a
.
(Fig. 3.3, Barbara
Ryden)
Distância entre
dois pontos (x, y) e (x + dx, y + dy):
![]()
Em coordenadas
polares:
e ![]()
![]()
2)
Superfície de uma esfera: a geodésica é um grande círculo (cujo centro
coincide com o da esfera). Triângulo desenhado na superfície
![]()
onde A: área do
triângulo e R: raio da esfera.
Diz-se que este
espaço tem “curvatura positiva” porque
. Na superfície da esfera também ocorre que a curvatura é
homogênea e isotrópica.
Distância entre
dois pontos
e
sendo r a distância ao
pólo norte e
o ângulo em relação a
um meridiano escolhido, que chamamos de meridiano principal:
![]()
Obs.: a superfície
de uma esfera tem uma área finita igual a
e uma distância máxima entre dois pontos que é
. Em contrapartida, um plano tem área infinita e não tem
distância limite entre pontos.
3)
Sela: espaço de curvatura negativa, que contém um hiperbolóide. David
Hilbert, matemático, provou que uma superfície de curvatura negativa constante
não pode ser desenhada num espaço tridimensional. A sela contém curvatura
constante somente na região central, que corresponde ao “assento”.
Propriedades:
![]()
![]()
Uma superfície de
curvatura negativa constante tem área infinita, sem distância limite entre
pontos.
Métrica:
Relações que dão a
distância entre dois pontos no espaço, como as expressões para “ds” que
obtivemos acima são chamadas de “métricas”. No caso mais geral, a curvatura é
uma propriedade local. Analogia: uma toalha de mesa pode estar amassada num
canto e esticada noutro; um pneu tem curvatura negativa na parte interna e
positiva na parte externa.
Para que um espaço
bidimensional seja isotrópico e homogêneo, só há três possibilidades: 1) é
uniformemente plano ou “chato”; 2) tem curvatura uniforme positiva; 3) ou tem
curvatura uniforme negativa. Sua geometria fica especificada com somente duas
quantidades:
: constante de curvatura e R: raio de curvatura. A
constante de curvatura pode assumir os valores:

Passando para um espaço tridimensional, com
, a métrica fica:
(coordenadas
cartesianas)
(coordenadas
esféricas)
![]()
Para ![]()
![]()
Um espaço
tridimensional com curvatura positiva tem um volume finito. O ponto com
é o “antípoda” à origem (como no caso da superfície
esférica). Viajando uma distância
é possível voltar ao ponto de origem neste espaço.
Para
:
![]()
Este espaço tem
volume infinito.
Podemos reunir as
três métricas possíveis em:
![]()
![]()

![]()
![]()
![]()
![]()
No
limite
,
(espaço é plano para
regiões pequenas).
·
Se k = 0 ou κ = -1, Sk cresce com r e vai a infinito quando r vai a
infinito.
·
Se k = +1, Sk máximo = R quando
e daí decresce de novo a 0 quando
, o ponto oposto à origem.
Usamos o sistema
de coordenadas
. Se usarmos ao invés de r,
, a métrica para um
Universo homogêneo e isotrópico fica:
Para κ = +1:
![]()
![]()
![]()
![]()





![]()
No caso genérico
(para κ= +1, 0 ou -1):

Incluindo o tempo,
e a expansão do Universo através do fator de escala a(t), temos a métrica de
Robertson-Walker:

Usando a métrica
de Robertson-Walker para um tempo fixo t:
![]()
Para medir a
distância a uma galáxia, com
e
constantes,
.
![]()
A distância
própria é obtida integrando ao longo da coordenada radial comóvel r:

Taxa de variação
da distância própria:
![]()
No tempo atual:
![]()

Expansão do
Universo: taxa de aumento da distância entre galáxias é a mesma do crescimento
do raio de curvatura
do Universo.
Distância própria
de Hubble
![]()

:
Para distâncias
maiores, vP > c.
Exercício: Calcular a
distância de Hubble.
Solução:

Galáxias mais
distantes do que dH estão se afastando com velocidades maiores que
c. Poder-se-ia pensar que isto viola a lei de que objetos massivos não podem
viajar a velocidades maiores que a da luz. Mas isto não é verdade. O limite de
velocidade = c é resultado da relatividade especial e se refere a movimentos
relativos de objetos num espaço estático. No contexto da relatividade geral,
pode-se ter objetos se afastando uns dos outros com velocidade superluminal
devido à expansão do espaço.
\
Relação entre a(t) e z:
Consideremos a luz
emitida por uma galáxia num tempo
, observada por nós em
. A luz viaja ao longo de uma geodésica nula, com
. Considerando propagação somente na direção radial:

Seja uma frente de
onda emitida em
e observada em
:

Seja a “onda
seguinte” emitida em
, que vai ser observada em:
:

Conclui-se que:

Subtraindo dos dois lados:

Resulta:

No intervalo de
tempo correspondente a
e
podemos assumir
constante e assim:

![]()
Então, devido à
expansão do Universo,
expande também.

Então, ao
observar uma galáxia a um redshift z =
2, por exemplo,
![]()
Ou seja, o
Universo tinha 1/3 do seu tamanho total.
Curvatura e
métrica (segundo Ronaldo de Souza)
1) Universo unidimensional curvo:
No caso de um
Universo cujo espaço é unidimensional, descrito por um círculo imerso em um
plano, o raio de curvatura seria:
![]()
Onde:
![]()
![]()
![]()
R seria o raio do
círculo,
e
, as projeções de R nos dois eixos de coordenadas, e
a posição angular. Um
habitante deste hipotético Universo perceberia a existência de apenas uma
dimensão para descrever o seu espaço físico, apesar de que ele se encontra, de
fato, imerso em um espaço de duas dimensões, um plano. Portanto, o seu elemento
de linha, ou seja, o elemento de deslocamento espacial no seu Universo
restrito, pode ser descrito por:
![]()
Que é a métrica neste espaço.
2) Universo bi-dimensional curvo sobre a
superfície de uma esfera:

Este mesmo
exercício pode ser repetido para o caso um pouco mais complexo, mas que ainda
podemos visualizar na figura acima, de um Universo em que os habitantes estão
restritos a se movimentar sobre a superfície de uma esfera, a qual se encontra
imersa em um espaço em três dimensões. Nessa situação, o sistema de
coordenadas mais adequado seria:
![]()
Sendo,
![]()
![]()
![]()
Estas relações nos
permitem escrever o elemento de deslocamento sobre a superfície da esfera:
![]()
![]()
Exercício: Obter a
expressão acima.
Observe que, tal
qual ocorria no exemplo anterior, um observador preso à superfície desta esfera
não teria acesso às três coordenadas que definem seu espaço. Na percepção dele,
seu espaço físico é constituído por apenas duas dimensões, a superfície da esfera
que define o seu Universo. Se orientarmos o pólo do nosso sistema de
coordenadas tridimensional de tal maneira que o eixo
passe através da
posição do observador, podemos ver que as coordenadas
,
e
podem ser medidas,
pois estão contidas no plano tangente, mas não
ou
. A única forma de ele perceber a presença desta coordenada
oculta é através da sua projeção
sobre o seu espaço
bidimensional.
Podemos verificar
que, se esse observador se afastar ligeiramente do pólo, ele deverá perceber
que seu deslocamento espacial é dado por, dl2 » (dx1)2 + (dx2)2 ou seja, em pequenas escalas o seu Universo
é euclidiano. Nessas escalas, o nosso observador não precisa considerar o
efeito do raio de curvatura da esfera. Isto se deve a que um pequeno
afastamento pode ser descrito por um deslocamento sobre o plano tangente que
passa pela posição polar. No entanto, se ele se movimentar o suficiente
perceberá que seu Universo é um pouco mais complicado do que imaginava. Nesse
caso, o plano tangente se afasta apreciavelmente da superfície da esfera, e o
observador simplesmente não conseguirá descrever o deslocamento através da
aproximação euclidiana. Para entender corretamente o processo ele precisa
utilizar a relação mais geral, na qual está embutido o raio de curvatura R de
seu Universo. De início ele pode se sentir um pouco perplexo por fazer uso de
uma coordenada adicional, a qual simplesmente não consegue enxergar.
Entretanto, essa é a solução matematicamente correta para descrever
completamente o seu Universo.
3) Espaço tridimensional, como o nosso, imerso
em um Universo de quatro dimensões:
![]()
Com,
![]()
![]()
![]()
![]()
Correspondendo
a um elemento de deslocamento espacial,
![]()
Exercício: Obter a expressão
acima.
Neste caso,
devemos lembrar que devido às nossas limitações, o raio tridimensional, r2 = (x1)2 + (x2)2
+ (x3)2, é o
único ao qual temos acesso visual. E este, por sua vez, é a projeção do “raio” quadridimensional
R sobre o nosso espaço tridimensional, através do ângulo ψ:. ![]()
![]()


![]()
Substituindo a
expressão acima para
na expressão para o
deslocamento no nosso espaço tridimensional obtemos:

![]()
que é a expressão
final adequada para descrever os deslocamentos espaciais num Universo
tridimensional com curvatura positiva. Nessa expressão, R é o raio de curvatura
que precisamos avaliar, mesmo sabendo que jamais poderemos visualizá-lo. Note
que quando realizamos observações locais, o termo de curvatura é desprezível, e
recuperamos a expressão para o deslocamento na geometria euclidiana. Quando a
dimensão amostrada é comparável ao raio de curvatura, detectamos uma diferença
apreciável em relação à métrica euclidiana. Suponha, para simplificar a
discussão, que dθ = dφ = 0 correspondendo a observações ao longo
da direção radial. Nesse caso, ao realizar observações locais, obtemos que dl » dr = [ (dx1)2 + (dx2)2
+ (dx3)2 ]1/2, ou seja, a
distância percorrida é exatamente igual à variação da sua coordenada radial,
resultado bastante intuitivo na geometria euclidiana. Quando a distância é
grande, precisamos utilizar a relação correta:

.
Percebemos,
portanto, que a distância percorrida é diferente da variação na coordenada
radial. Para se entender o que está ocorrendo precisamos retornar à figura da
esfera, que ilustra o mesmo efeito para um observador condenado a viver em um
espaço bidimensional imerso em um Universo tridimensional. Também ele sentirá o
mesmo efeito, quando observa objetos mais distantes, e este resultado é motivado
pela necessidade da sua coordenada l acompanhar a superfície da esfera,
afastando-se, portanto, da solução euclidiana local, representada ali pela
coordenada r contida no plano tangente.
3) A métrica de Robertson-Walker
Incluindo o tempo,
podemos calcular a distância entre dois eventos no espaço-tempo: entre
e
. Na relatividade especial, onde não há curvatura (o espaço é
plano), e a separação entre dois eventos no espaço-tempo é:
![]()
sendo,
![]()
![]()
Esta é a Métrica
de Minkowski, que se aplica no caso do espaço plano (não há gravidade) e
estático (não há expansão do espaço) da relatividade especial.
O caminho de um
fóton no espaço-tempo é uma geodésica quadridimensional, mas um tipo especial
de geodésica – a geodésica nula:
![]()
Se a trajetória é
radial, dΩ = 0, então:
![]()
Na presença de
gravidade, assumindo um Universo homogêneo e isotrópico em expansão com três
dimensões espaciais e uma temporal, a métrica fica:

para um espaço com
raio de curvatura
(curvatura nula,
positiva ou negativa). Esta é a métrica de
Robertson-Walker, derivada por estes dois físicos por volta de 1939
para um Universo homogêneo e isotrópico em expansão, com fator de escala a(t), onde a variável ‘t’ é o tempo
cósmico ou tempo próprio e as variáveis (r, θ, Φ) são coordenadas comóveis
(ver Fig. 3.13 do livro do Ronaldo) ;
Num Universo homogêneo e isotrópico toda a informação sobre sua
geometria está contida em
,
e
. O objetivo da Cosmologia moderna é estudar estes valores.
Observação: note que a expressão final para a métrica é a mesma obtida
por Barbara Ryden, usando um método um pouco diferente.
4) Distância própria dP(t):
A distância própria
entre dois pontos num tempo ‘t’ é o comprimento da geodésica entre estes pontos
para um valor do fator de escala igual a a(t).
Movimento dos
fótons: para os fótons, o deslocamento no espaço-tempo é nulo:
![]()
Na métrica de
Robertson-Walker, a distância própria dP é obtida de:



onde assumimos dθ e dΦ
nulos (para fóton se movendo somente na direção radial) e te
é o tempo da emissão do fóton. A distância comóvel r* é igual à distância própria no tempo
atual t0.
Para um Universo plano
:

Precisamos, então,
conhecer a dependência de a(t) com o tempo para podermos obter a expressão para
as distâncias própria e comóvel.
O significado da distância
comóvel pode ser compreendido através da figura 3.13 do livro do Ronaldo: à
medida que o Universo se expande, as distâncias se expandem com ele. A
distância comóvel é maior do que a distância percorrida pelo fóton:

Porque, à medida que o fóton viaja pelo
Universo, o Universo se expande fazendo com que a distância da galáxia que
emitiu o fóton seja maior do que o caminho percorrido pelo fóton no intervalo
de tempo
.
Questão
(Diefferson): As distâncias mencionadas
em notícias astronômicas são as distâncias próprias?
Resposta: Quando observamos a luz de uma galáxia, a única coisa que conseguimos
medir é o redshift. Já sabemos que o redshift z se relaciona com o fator de escala do
Universo:
. Assim, podemos calcular qual é o fator de escala do
Universo na época que a luz foi emitida
. O que se faz, em geral, é usar um modelo cosmológico para
calcular a idade do Universo no tempo em que o fóton foi emitido
, ou o lookback time:
. Poder-se ia dar já o valor da distância própria ou comóvel,
mas em geral o que se dá é a distância percorrida pelo fóton
.
Para distâncias pequenas (até centenas de parsecs), a distância comóvel é quase
igual à percorrida pelo fóton. Para distâncias progressivamente maiores, a
distância comóvel vai se tornando progressivamente maior do que a percorrida
pelo fóton. Uma ilustração disto pode ser obtida através de programas
elaborados para o cálculo de parâmetros cosmológicos como o Ned Wright’s
Cosmology Calculator, que pode ser acessado através do endereço eletrônico:
http://www.astro.ucla.edu/~wright/CosmoCalc.html.