FIS02012 - Cosmologia e Relatividade

Profa. Thaisa Storchi Bergmann

 

Bibliografia: baseado no capítulo 10 do livro de Barbara Ryden

 

A Nucleossíntese

 

Como era o Universo antes de serem emitidos os fótons na superfície de último espalhamento? A superfície de último espalhamento, que corresponde a uma idade de 350 mil anos é o limite que podemos observar o Universo através dos fótons que chegam até nós.

 

Antes disso, em particular, quando a radiação dominava sobre a matéria (a<< arm= 2.8 x 10-4 e t << trm ≈ 47 mil anos), o fator de escala era proporcional a  t1/2. Para um Universo plano dominado pela radiação:

 

 

 

 

Deve-se observar que esta expressão vale para t << 47000 anos e não no limite em que εr ≈ εm.

 

Então, na época dominada pela radiação, como a(t) a t1/2. e como T a a-1, . Usando a expressão acima para a(t), chega-se a (fazer como exercício):

 

 

e,

 

 

 

Vimos nos primeiros capítulos que a energia média do fóton emitido por um corpo negro de temperatura T é dada por:

 

 

 

Ou seja, quando a idade do Universo era da ordem de 1 segundo, a energia média do fóton era ≈ 3 MeV.

 

Podemos comparar esta energia com as energias de repouso do elétron (mec2 = 0,511 MeV)  e do próton (mpc2 =938,3 MeV)  para concluir que a era hadrônica (da formação de hádrons, como os prótons) já tinha passado quando a idade era 1 segundo, mas a energia ainda era suficiente para formar léptons (partículas leves, como os elétrons).

 

Para exemplificar podemos considerar que para formar um par de próton/anti-próton precisamos de uma energia E(t) = 2 x 938,3 MeV ≈ 1876 MeV, o que corresponde a uma idade de:

 

 

 

Para formar um par elétron-pósitron precisamos menos energia E(t) = 2 x 0,511 MeV ≈ 1,022 MeV, o que corresponde a uma idade de:

 

 

 

 

Física Nuclear e Cosmologia

 

Consideremos as definições da energia e tempo de Planck:

 

Se

 

Então:

 

 

 

 

 

Podemos considerar que, no início do Universo (tempo de Planck), a energia média dos fótons era igual à Energia de Planck e que o Universo se expandiu e esfriou resultando numa energia média por fóton na época atual de Emed = 2,7k x 2,725 K = 6 x 10-4  eV. São 31 ordens de magnitude em energia, e durante a expansão, algumas fases foram especialmente cruciais para a evolução do Universo.

 

Por exemplo, já falamos da era hadrônica e era leptônica. A próxima era importante é a era da nucleossíntese, quando ocorreram as reações nucleares. A ocorrência destas reações depende da energia de ligação dos núcleos. Por exemplo, quando um nêutron e um próton se fundem para formar um núcleo de Deutério, liberam uma energia de ligação de 2,22 MeV:

 

 

 

 

Agora, se temos 2,22 MeV de energia disponível, poderemos destruir o Deutério (reação inversa da acima). Há liberação de energia na síntese de núcleos cada vez mais pesados até chegar ao 56Fe e 62Ni, a partir dos quais a energia é liberada em processos de fissão nuclear e não mais de fusão. Então, à medida que a temperatura do Universo diminuiu, a energia média por fóton se tornou menor do que 2,22 MeV. Os núcleos  de deutério formados não eram mais destruídos, iniciando-se a era da nucleossíntese primordial:

 

 

 

Como a energia de ligação de D é 2,22 MeV e a energia de ionização do H é 13,6 eV, a razão entre as duas energias dá a razão entre as temperaturas correspondentes à nucleossíntese e à recombinação:

 

 

 

 

 

Consideremos agora o Universo com uma idade de 0,1s:

 

 

 

 

 

A energia era muito maior do que a energia de repouso dos elétrons e pósitrons, que eram então criados aos pares:

 

 

 

 

Já existiam prótons e assim, os prótons se combinavam com os elétrons formando nêutrons, que se transformavam de novo em prótons através das reações:

 

 

 

Onde ne é o neutrino do elétron e o (anti) ne  é o seu anti-neutrino.

 

Enquanto prótons e nêutrons se mantêm em equilíbrio através das reações acima, suas densidades podem ser descritas por distribuições de Maxwell-Boltzmann:

 

 

 

 

 

Onde os pesos estatísticos são . Fazendo a razão:

 

 

 

 

Chamando  de  e sendo:

 

 

Pode-se escrever:

 

 

Para:

 

 

 

o número de nêutrons igualava ao de prótons, mas depois disto, o número de nêutrons cai exponencialmente em relação ao de prótons.

 

Entretanto, a relação acima só vale para o equilíbrio, e este durou pouco porque a interação de transformação  envolve neutrinos, cuja taxa de interação cai rapidamente com o tempo. Quando a taxa de interação Γ fica igual a H, os neutrinos se “desacoplam” dos nêutrons e prótons e a razão nn / np “congela” numa energia kTf = 0,8 MeV, com  Tf = 9 x 109 K:

 

 

 

 

 

Os nêutrons decaem rapidamente, com meia vida de 617 s, e teriam logo desaparecido no Universo se não tivessem rapidamente se combinado com os prótons para formar deutério D:

 

 

 

O deutério depois vai acabar formando 4He. A partir da razão n/p=0,2, já podemos fazer uma estimativa da fração primordial de 4He no Universo Yp:

:

 

 

 

Supomos para isto que cada 2 nêutrons criados após o congelamento vai acabar sendo incorporado num núcleo de 4He. Como nn / np = 1/5, para cada 2 nêutrons, há 10 prótons. Como eu preciso de 2n + 2p para formar um 4He, a fração máxima será:

 

 

Para mp=mn, o que é uma boa aproximação.Para obter uma expressão genérica em termos de , fazemos:

 

 

 

O valor observado para a abundância primordial de 4He é, menor que o valor máximo e isto pode ser entendido pelo fato de que parte dos nêutrons decaem antes de se combinar.

 

 

A Síntese do Deutério

 

Vimos acima que para t ≈ 2 s;  nn / np  = 0,2, mas ao mesmo tempo:

 

 

 

A energia liberada vem de:

 

.

 

 

O número relativo de prótons, nêutrons e deutérios no processo depende da temperatura T e é dado por uma equação análoga à equação de Saha:

 

 

 

 

Onde:

 

Substituindo, resulta

 

 

 

 

 

A temperatura Tnuc da nucleossíntese do Deutério é definida como aquela em que nD = nn, ou seja, quando metade dos nêutrons livres foi capturada para formar D.

 

Na expressão acima, deixamos à esquerda só nD / nn e substituímos np por:

 

 

Onde a expressão para ng é a de um corpo negro de temperatura T. Então:

 

 

 

Para obter Tnuc, fazemos nD = nn:

 

 

 

 

Exercício: Mostrar que Tnuc ≈ 0,066 MeV ≈ 7,6 x 108 K, para  mnc2 = 939,6 MeV; BD = 2,22 MeV  e  η = 5,5 x 10-10.

 

Para Tnuc ≈ 0,066 MeV, a idade do Universo era tnuc =(1MeV/0,066MeV) = 230 s (os “famosos” ~ 3 minutos iniciais do Universo). Este tempo não é desprezível frente ao tempo de decaimento do nêutron :

 

 

 

 

Então, se no início das reações =1/5, passados 200 segundos:

 

 

Onde multiplicamos o no. inicial de nêutrons pela fração que decaiu e o de prótons pela fração de nêutrons que se transformou em prótons.

 

Esta nova razão diminui  o número máximo de núcleos de 4He, e portanto Yp. Lembrando que  :

 

 

 

 

Se f = 0,20 → Ymax = 0,33 (sem considerar o decaimento dos nêutrons)

Se f = 0,15 → Ymax = 0,26, valor mais próximo do observado de 0,24.

 

 

 

Formação de 4He

 

O deutério, uma vez formado, acaba entrando em outras reações que vão resultar na produção de 4He através de:

 

 

 

 

O 4He tem uma energia de ligação grande, e não há núcleo estável com A = 5, portanto não há reações 4He + p ou 4He + n. Só são formadas pequenas quantidades de 6Li e 7Li:

 

 

 

 

E, igualmente, pequenas quantidades de 7Be:

 

 

 

 

Também não há núcleo estável com A = 8, e o resultado é que a nucleossíntese começa com D e essencialmente acaba em 4He, sendo que os detalhes dependem de seções de choque que são funções da temperatura T.

 

Quando T ~ 4x108 K, para t ~ 10min, a nucleossíntese essencialmente termina, e abundâncias primordiais de D, 3He, 4He, 6Li e 7Li dependem de parâmetros físicos, e, em particular, do valor de , que pode ser obtido se tivermos observações de abundâncias primordiais, em especial a de D, cuja abundância depende fortemente de . Uma dificuldade observacional com relação ao deutério  D é que ele é destruído nas estrelas, e assim precisamos observar o meio inter-galáctico para obter sua abundância primordial

\

Valores obtidos a partir do meio intergaláctico (medindo absorção produzida na da luz de Quasares distantes pelo meio intergaláctico que se interpõe):

 

 

 

 

Assimetria Bárion/Anti-bárion

 

Há duas questões fundamentais não respondidas no modelo do Big Bang quente e na teoria de formação das partíuculas no Universo:

 

1)      Por que  é tão pequeno?

2)      Por que o Universo “preferiu” bárions a anti-bárions?

 

Para discutir esta questão, devemos considerar que os prótons e nêutrons são formados por quarks:

 

Próton: 2 quarks up e 1 quark down;

Nêutron: 1 quark up e 2 quarks down.

 

No Universo primordial, quando kT ≥ 150 MeV, os quarks não estavam confinados. Havia uma “sopa de quarks”, os quais eram produzidos e aniquilados:

 

 

Deve ter ocorrido nesta época uma pequena assimetria entre quarks e anti-quarks:

 

 

 

 

À medida que o Universo se expandiu e esfriou, não se produziram mais pares quarks/anti-quarks. Os que existiam se aniquilaram em fótons, mas por causa do pequeno excesso:

 

 

 

 

restaram estes quarks para formar a matéria bariônica que hoje observamos.

 

Para exemplificar a dimensão da assimetria: considerando que 1/η ≈ 2 x 109 , concluímos que haviam (1 x 109) quarks para (1 x 109 – 3) anti-quarks. A cada bilhão de aniquilações entre quarks e anti-quarks, que resultaram em 2 bilhões de fótons, sobraram 3 quarks. Estes 3 quarks depois se juntaram para formar um bárion em  kT ~ 150 MeV, resultando em η ≈ 5 x 10-10 (razão entre no. de bárions e no. de fótons). É uma assimetria bem pequena, mas fundamental para criar o Universo como o conhecemos!