FIS02012 - Cosmologia e Relatividade
Bibliografia:
baseado no capítulo 8 do livro de Barbara Ryden
Matéria
Escura
Notícia de 21 de Agosto de 2006:
A estrutura abaixo
é o Aglomerado Bala (Bullet Cluster), que se constitui na verdade de dois
aglomeradosde galáxias passando um através do outro. A matéria luminosa – gás
quente que emite em raios-X, representada em vermelho na figura -- de um
aglomerado interage com a do outro a medida que eles se atravessam. Entretanto,
a matéria escura – representada em azul – não interage, passando direto,
separando os dois tipos de matéria: a matéria escura, que vai “na frente” e a
matéria luminosa, que segue atrás, sofrendo efeito de arrasto.

Crédito:
Observatório Chandra de raios-X.
A distribuição da
matéria escura foi obtida a partir do efeito de lentes gravitacionais: a massa
do aglomerado funciona como uma lente e curva o espaço de forma que imagens de
galáxias distantes ficam distorcidas. A partir destas distorções é que se
calcula a distribuição de massa do aglomerado, concluindo-se que a maior parte
da massa dos aglomerados se encontra nas estruturas representadas em azul.
O texto original
em ingles desta matéria e da seguinte pode ser encontrado aqui.
Notícia astronômica de 15 de maio de 2007: Hubble encontra
anel de matéria escura no aglomerado de galáxias Cl0024+17 (ZWCl0024+1652). A
ilustração mostra a distribuição de matéria escura (em azul) derivada a partir
do efeito de lente gravitacional produzido pelo aglomerado na imagem de
galáxias distantes.

O aglomerado é bem
conhecido pelo efeito de lente gravitacional, e está localizado a uma distância
de cinco bilhões de anos-luz. O anel tem um diâmetro de 2,6 milhões de
anos-luz. O que é novo é o fato de que a distribuição de matéria escura é
diferente da distribuição tanto do gás como das galáxias no aglomerado. Pelo
fato da distribuição de matéria escura não seguir a das galáxias e do gás,
conclui-se que ela se comporta de maneira diferente do que a matéria bariônica.
No início, os
astrônomos pensaram que o anel era um “artefato” de análise, ou da redução dos
dados. Demorou mais do que um ano para que o autor da descoberta, M. James Jee,
e sua equipe da Universidade de John Hopkins, em Baltimore, se convencessem que
o anel era real; na verdade, o anel parece ser uma “onda”, como as que formam
num lago, quando se atira nele uma pedra.
Trabalhos
anteriores sugerem que o aglomerado seja resultado de uma colisão entre dois
aglomerados, que teria ocorrido de 1 a 2 bilhões de anos atrás. A colisão teria
ocorrido ao longo da nossa linha de visada e devido a esta perspectiva, a
distribuição de matéria escura tem a forma de um anel. Simulações por
computadores de colisões de aglomerados de galáxias pela equipe do astrônomo,
mostram que na colisão, a matéria escura cai para o centro da distribuição de
massa combinada dos dois aglomerados e é jogada para fora, de forma análoga a
uma colisão elástica: fica um pouco da matéria no centro e outra parte é jogada
para fora. À medida que a matéria escura se afasta do centro, começa a diminuir
a velocidade e a “empilhar”, formando o anel.
O estudo da
estrutura permite a investigação da maneira como a matéria escura responde à
gravidade. A colisão entre dois aglomerados de galáxias produziu uma “onda” de
matéria escura que é revelada nas imagens das galáxias mais distantes,
amplificadas e distorcidas por esta onda de matéria escura. Analogia: observar
imagens de pequenos seixos no fundo de um lago, na superfície do qual existem
pequenas ondas. As imagens dos seixos ficam distorcidas à medida que as
pequenas ondas passam.
Instrumento
utilizado: ACS: Advanced Camera for Surveys do Telescópio Espacial Hubble.
1) A Matéria
Visível
Estimativas da
densidade de matéria visivel foram primeiramente feitas a partir de imagens astronômicas
na região ótica do espectro, através de filtros. As primeiras observações foram
feitas usando placas fotográficas que são mais sensíveis à luz azul, que corresponde ao filtro conhecido como
“filtro B”, que deixa passar fótons no intervalo de: 4 x 10-7m (ou
4000 Angstrons) < λ < 4,9 x 10-7m (4900 Angstrons). A
luminosidade do Sol na banda B é LSol= 4,7 x 1025 W.
A densidade de
luminosidade atual na banda B medida dentro de centenas de Mpc é:
![]()
Para converter em
densidade de massa devemos multiplicar a densidade de luminosidade pela relação
massa x luminosidade. Por exemplo:
Para estrelas de
tipo O:

Para anãs de tipo M da seqüência principal:

Para a mistura
típica de estrelas nas galáxias:

A densidade de estrelas é:
![]()
Dividindo pela
densidade crítica:

Este número é um
limite inferior, pois não inclui estrelas evoluídas pouco luminosas (anãs
brancas, estrelas de nêutrons, buracos negros e anãs marrons). Também não
inclui o meio interestelar (gás e poeira), que, na Via Láctea, constitui em
torno de 10% da massa.
Finalmente, nos
Aglomerados de Galáxias massivas, como o Aglomerado de Coma, observa-se emissão
em raios-X do meio intergaláctico da qual infere-se que há uma massa de gás
quente (T ~1 x 108K) que é, no caso de Coma, 6-7 vezes a massa em
estrelas (ver site do Satélite Chandra). A massa em estrelas no aglomerado de
Coma é
e
.
Vamos ver no
Capítulo 10 que a determinação mais precisa da quantidade de massa bariônica no
Universo vem das predições da nucleossíntese primordial.
2) Matéria
Escura nas Galáxias e Aglomerados
A partir do
movimento das estrelas em órbita numa galáxia como a Via Láctea podemos obter a
aceleração centrípeta:

Se ela for devida
à atração gravitacional da galáxia (massa interna a um raio R):
![]()
então:

Subraindo a
velocidade da galáxia, vgal e corrigindo pela inclinação “i” do
disco em relação ao plano do céu, conforme figura 8.3 do livro de Barbara
Ryden:

Onde “b” é o
semi-eixo menor e “a” o semi-eixo maior do disco da galáxia.
A partir da
expressão acima, esperar-se-ia que a velocidade de rotação caísse com o inverso
da raiz quadrada do radio, como reprentado na figura abaixo pela linha
tracejada (A), mas a observação indica que a velocidade não cai com a distância
(B).

A: Curva de rotação
esperada para uma galáxia espiral; B: curva observada. (Wikipedia)

Obtém-se que Rhalo
> 20kpc, pois v não cai até pelo menos 20kpc. O parâmetro de densidade para
as galáxias, incluindo o halo de matéria escura, à semelhança de nossa galáxia
é da ordem de 10 a 40 vezes o parâmetro de densidade relativo às estrelas.
Desta forma, conclui-se que:
![]()
3) Massa dos Aglomerados de Galáxias
O Teorema do
Virial dá a relação entre a energia potencial W e a cinética K num sistema em
equilíbrio dinâmico::
![]()
Poderemos escrever
então para um aglomerado de galáxias que :se encontre em equilíbrio

onde: M = massa total do aglomerado;
α
= fator adimensional que depende de sua densidade. Para boa parte dos
aglomerados,
.
rh
= é o raio de meia massa, correspondendo ao raio que engloba a metade da
massa do aglomerado
.
V é a velocidade
quadrática média das galáxias no aglomerado:
![]()
sendo
, a dispersão de
velocidades das galáxias.
Assumindo que a
dispersão de velocidades é isotrópica.
![]()
Para se obter rh, em geral se assume que a razão M / L é
constante com o raio e se usa então o raio que engloba metade da luminosidade
do aglomerado.
4) Lentes
Gravitacionais
Se um fóton passa
próximo a um objeto massivo com um parâmetro de impacto r (ver www.if.ufrgs.br/~thaisa/bn/distorcao.htm),
a curvatura do espaço vai causar a deflexão do fóton de um ângulo:
![]()
Sendo M a
massa do objeto.. Esta deflexão produz o efeito conhecido como lente
gravitacional
Exercício: Mostrar
que, para a luz de uma estrela passando na borda do Sol (r = raio do Sol),
α = 1,7’’, como foi detectado em 1919, numa expedição a Sobral, no Ceará,
durante um eclipse Solar, de uma equipe que veio ao Brasil especificamente para
testar a Teoria da Relatividade Geral de Eistein.
Se tivermos um
objeto compacto de massa M, a meio caminho entre nós e a Grande Nuvem de
Magalhães, por exemplo, e este objeto passa bem na direção de uma estrela da
Nuvem, este objeto vai causar uma deflexão na luz da estrela, produzindo uma
imagem distorcida e ampliada da mesma. Se a direção do objeto compacto é
exatamente a da estrela, a imagem produzida é o chamado “Anel de Einstein”, com
raio angular:

onde: M = massa do objeto compacto
d =
distância até a estrela
x d = distância até o objeto compacto (0 < x < 1)
Para x = 0,5
(objeto compacto situado na metade do caminho entre observador e agente gerador
da imagem)

Onde o valor está dado
en segundos de arco. Se o objeto compacto não está bem alinhado com a estrela,
vão aparecer arcos ao invés de um anel completo.
Projeto MaCHO (Massive Compact
Halo Object): monitoramento de milhões de estrelas da Grande Nuvem de Magalhães
para detectar objetos compactos escuros no Halo da Via Láctea. Não é possível
observar o anel de Einstein para objetos compactos do halo, porque o raio
angular é muito pequeno, mas dá para detectar variação na luz das estrelas pelo
efeito de amplificação produzido pela lente.
Podemos estimar a
escala de tempo da variação, através do cáculo do tempo para o objeto compacto
percorrer uma distância angular igual a θE. Caso o objeto
esteja no meio do caminho entre nós e a Grande Nuvem poderemos escrever:

Exercício: Demonstrar a expressão acima.
Esta expressão
represente o tempo que dura a amplificação da luz (em dias); v é a velocidade
relativa transversal à linha de visada entre o objeto compacto e a estrela.
Δt será tanto maior quanto mais
massivos for o objeto.
Conclusão do
projeto MACHO:
Há menos eventos
de curta duração do que o esperado: não há muitos objetos com massa menor que
8% da massa solar (anãs marrons) no halo escuro da nossa Galáxia. Concluiu-se
que, da massa do Halo necessária para explicar a rotação das estrelas do disco
a grandes distâncias do centro da Via Láctea, somente 20% tem origem em objetos
compactos com massa típica superior a 15% da massa solar (Δt > 35
dias). A massa predominante do Halo deve ser na forma de uma componente
distribuída uniformemente.
Lentes produzidas
por Aglomerados de Galáxias:
Consideremos o
exemplo de um aglomerado de massa típica de M ~ 1014MSOL,
a uma distância de 500 Mpc, que amplifica e distorce a imagem de uma galáxia a
1000 Mpc de distância:

Onde o raio
angular é dado em minutos de arco. Neste caso, podemos observar claramente a
lente. Exemplo: Aglomerado Abell 2218, z
= 0,18 (dp(t0) =
770 Mpc). Obtém-se que a massa calculada desta forma para o Aglomerado é
semelhante à encontrada utilizando o Teorema do Virial (Ωm,0 ≥
0,2).
5) Natureza da
Matéria Escura
A natureza da
matéria escura ainda não é conhecida. Hipóteses consideradas são:
1)
Áxions: partícula com E = mc2 ~ 10-5 eV ~ 2 x 10-41kg;
mas ainda não foram detectados;
2)
Buracos Negros primordiais: m ~ 105 MSOL.
3) A única partícula não-bariônica que
conhecemos que parece ter alguma massa é o neutrino. Em analogia à radiação de
fundo do Universo, conclui-se que deve existir hoje um fundo de neutrinos, como
um “fóssil” de um tempo em que o Universo era opaco aos neutrinos.
A densidade em
número para cada tipo de neutrino é calculada como (3/11) da densidade de
fótons nγ.

Exercício: Estime quantos
neutrinos e fótons da radiação de fundo estão atravessando seu corpo a todo
instante.
Para que os
neutrinos dessem conta de toda a matéria não-bariônica no Universo, sua massa
deveria ser:

Observações de
neutrinos do Sol só permitem concluir que os neutrinos oscilam entre um tipo e
outro e obter a diferença entre as massas. Podem-se obter somente limites
inferiores para as massas: 0,05 eV;
0,007 eV e muito menor do que 0.007 eV, o que daria somente Ων ~
10-3. Para que eles pudessem representar a matéria escura, suas
massas deveriam ser: 4,0 eV, 4,0004 eV e
4,000006 eV. Ainda não foi
possível medir suas massas.
Modelos de
supersimetria: produzem existência de partículas não-bariônicas como fotinos,
gravitinos, axinos, sneutrinos, gluinos,
etc. O fato de ainda não terem sido observados em aceleradores significa
que sua energia mc2 >10
GeV! Deu-se o nome a WIMPs a estas
particulas, significando: Weak Interactive Massive Particles.