FIS02012 - Cosmologia e Relatividade
Profa. Thaisa
Storchi Bergmann
Observações Fundamentais para a Cosmologia (continuação)
4) Principais
partículas que constituem o Universo
Exemplo: prótons e
nêutrons (ambos feitos de quarks). Os nêutrons decaem em 90 segundos se
estiverem livres. Os prótons têm tempo de decaimento maior que a idade do
universo.
Exemplo: Elétrons.
O Universo é
neutro, ou seja, o número de elétrons é igual ao número de prótons. Como a
massa do próton é muito maior que a do elétron, a matéria do Universo como
conhecemos, que é constituída de íons, átomos e moléculas, é chamada de matéria
bariônica.
Setenta e cinco
por cento da matéria bariônica do Universo é composta por H (Hidrogênio), vinte
e três por cento por He (Hélio) e somente dois por cento são elementos mais
pesados que H e He.
Interagem
fracamente com a matéria através da força nuclear fraca: um neutrino emitido
pelo Sol precisaria passar por uma espessura de alguns parsecs (muito além do
raio do Sistema Solar) de chumbo para ter 50% de chance de interagir com um
átomo de chumbo. Ainda não se sabe o valor para sua massa.
Fótons são fáceis
de criar. Basta aquecer um material como o filamento de uma lâmpada
incandescente. Se o objeto é opaco, prótons e nêutrons, elétrons e fótons vão
entrar em equilíbrio térmico. Nesta situação, caracterizada por uma temperatura
T, a densidade de energia e dos fótons só
depende da temperatura:

=> Distribuição de energia de Corpo Negro – Lei de Planck
(ver Fig. 2.7), do livro de Bárbara Ryden.
onde:
![]()
![]()
![]()
![]()
onde νmax
é a freqüência correspondente ao máximo da distribuição ε(ν)dν e λmáx é o comprimento de onda
correspondente ao máximo da distribuição de ε(λ)dλ. A última
expressão acima é conhecida como Lei do deslocamento de Wien (deslocamento do
pico da distribuição conforme o valor da temperatura T).
A
densidade total de energia emitida por um corpo negro é dada por:
![]()

![]()
A densidade de fótons é dada por:
![]()

E a energia média
do fóton é: εmédia ~ 2,70 kT, semelhante à energia de pico do
espectro (hνmax = 2,82 kT).
Exercício: Calcular a
energia média dos fótons emitidos por nós (humanos). Solução: Se temos uma temperatura T = 310 K,
então a εmédia ~ 2,70k(310K) ~ 0,072 eV, assim λ = 1,7x10-5
m.
Exercício: Fazer este cálculo para o
Sol, assumindo T = 5800 K.
·
Matéria escura
Desde a década de
1970, os astrônomos concluíram que o potencial gravitacional das galáxias e aglomerados
de galáxias são dominados por algo que não vemos, e que por isto chamamos de
“Matéria Escura”. Veja em www.if.ufrgs.br/~thaisa/matesc.htm
uma descrição das evidências observacionais da presença de matéria escura no
Universo. Hoje em dia, sabemos que ela constitui cerca de 26% do conteúdo de
matéria e energia do Universo, comparado com 4% que é a contribuição da matéria
bariônica (galáxias, estrelas, planetas, enfim o que conhecemos do Universo).
Portanto, a matéria escura domina a gravitação no Universo, e nas simulações
cosmológicas é muito mais importante na evolução do Universo do que a matéria
bariônica (que, em geral, nem entra nas simulações, pois sua contribuição
relativa seria de somente 4/26=15%).
Já se cogitou que
ela poderia ser formada por planetas, estrelas anãs marrons (que emitem pouca
luz), mas observações (envolvendo efeitos de microlentes gravitacionais) têm
descartado que tais objetos contribuam de forma importante para produzir os
efeitos observacionais encontrados.
Os candidatos mais
cotados são partículas massivas pouco interagentes conhecidas como WIMPS –
do inglês Weak Interacting Massive Particles. Seriam semelhantes aos
neutrinos (mas mais massivos), que interagem só através da força fraca e
gravitacional.
5) A
radiação cósmica de fundo (CMB)
Descoberta
acidentalmente por Penzias & Wilson em 1965, depois mapeada com o satélite
COBE e mais recentemente com o satélite WMAP, esta radiação permeia o Universo e
apresenta um espectro de corpo negro à temperatura T = 2,725±0,001 K. Usando
então as expressões válidas para um corpo negro, podemos obter sua densidade de
energia:
![]()
Podemos comparar a
densidade de energia na radiação de fundo com a densidade de energia na
radiação emitida pelas estrelas e galáxias:
![]()
![]()
Mas esta é uma
densidade de luminosidade, e não de energia. Multiplicando pela idade do
Universo:
![]()
ou seja, a
densidade de energia na radiação emitida pelas estrelas é cerca de 3% somente
da densidade de energia na radiação de fundo, e a densidade de energia contida em
radiação no Universo é dominada pela radiação de fundo.
Podemos também
calcular a densidade de fótons:
![]()
![]()
Ou seja, existem 411 milhões de fótons da
radiação de fundo em cada metro cúbico do Universo!
E a energia média
por fóton é eg/ng:
Emédia
= 6,34x10-4 eV, que
corresponde a um comprimento de onda
λ = 2mm.
Exercício: Provar a
afirmação acima.
![]()
A CMB pode ser
explicada, e inclusive é predita, pelo modelo de Big Bang, no qual o Universo
era muito quente e denso no seu início, com um espectro de corpo negro. Depois
de terem se formado todas as partículas do Universo, a matéria bariônica estava
inicialmente toda ionizada e os elétrons livres espalhavam a radiação. À medida
que o Universo expandia, se esfriava. Quando a temperatura baixou a T ~ 3000 K,
os elétrons se combinaram com os átomos e a radiação começou a escapar. O
Universo “ficou transparente” e os fótons puderam escapar porque deixaram de
interagir com os elétrons livres, que foram capturados pelos átomos. Diz-se
que, neste instante, houve o desacoplamento da matéria e da radiação e a CMB é
esta radiação que observamos agora, muito mais fria (3000 K→2,725 K),
devido à expansão do Universo.
Para entender a
queda de temperatura T, da radiação de fundo, consideremos uma região do
Universo com volume V proporcional ao fator de escala do Universo ao cubo: a(t)3. Neste volume, a
densidade de energia é eγ = αT4
e a pressão dos fótons é Pγ= eγ / 3. Pela primeira lei da termodinâmica, dQ = dE
+ PdV: quantidade de calor que flui para dentro ou para fora do volume V.
Num Universo
homogêneo, não há fluxo de calor entre regiões (tudo tem a mesma T), ou seja,
dQ = 0. Então:
![]()
![]()

![]()
![]()
Substituindo as
duas últimas na primeira equação:

Dividindo tudo por
αT3 e rearranjando:
![]()
![]()
![]()
Como V = cte.= a(t)3, substituindo acima
resulta:
![]()
![]()
![]()
Assim: T(t)
resulta proporcional a a(t)-1.
Na época do
desacoplamento, T = 3000 K. Na época atual T0 = 2,725 K. Assim,
podemos calcular a variação no fator de escala do Universo:

O fator de escala
aumentou de um fator de 1100 desde o desacoplamento até agora, ou seja, na
época do desacoplamento o Universo era 1100 vezes menor.