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FIS02012 - Cosmologia e Relatividade
Profa. Thaisa
Storchi Bergmann
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O fluxo de uma estrela de luminosidade L a uma
distância r é dado por:
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Seja uma camada esférica de estrelas, de raio r e espessura dr, centrada na Terra (Fig. 2.1), do livro de Barbara Ryden. A
intensidade da radiação desta camada de estrelas é:
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Sendo n
a densidade de estrelas em cada ângulo sólido:
onde dA
é o produto entre r2 e o
elemento de ângulo sólido dω. Assim:
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Então a intensidade da radiação fica:
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Fazendo r ir ao infinito, a intensidade total da luz
tem o seguinte comportamento:
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Este resultado é conhecido como o Paradoxo de
Olbers: a intensidade total da luz tende ao infinito, ou seja, o céu
deveria ser totalmente brilhante à noite, pois estaria coberto de estrelas.
Toda as linhas de visada deveriam chegar até a superfície de uma estrela.
Solução do Paradoxo:
Hipóteses erradas:
1) Temos as linhas de visada desobstruídas a todas as
estrelas no Universo; isto não é verdade, algumas estrelas vão ficar atrás de outras
mas se a distribuição de estrelas é infinita, isto não resolveria o paradoxo.
2) A matéria interestelar esconderia cada vez
mais as estrelas que estivessem mais distantes. Isso também não resolve, pois
se as estrelas e a poeira estivessem distribuídas uniformemente, a poeira
entraria em equilíbrio com as estrelas e brilharia também.
3) Considera-se a densidade de estrelas n e sua luminosidade L como constantes em todo o Universo.
Isto não é verdade. Se nL fosse
proporcional r-2, por
exemplo, não teríamos infinito para a intensidade total da luz, como vimos
acima.
4) O Universo é infinito. Se não for:
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5) O Universo tem idade infinita. Se não tiver:
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onde t0 = idade do Universo.
6) Fluxo de uma estrela distante é
, como sabemos. Isto vale para a geometria Euclidiana.
Mas para um espaço que se curva e se expande isto não vale mais.
Fator principal para solução do Paradoxo:
O Universo tem idade finita e existe uma distância
limite, que é a "distância do horizonte", a partir da qual a luz não
teve tempo de chegar até nós. Uma maneira simples de quantificar isto é
considerar um círculo com raio r=1 parsec,
que pode ser considerada como uma distância média entre as estrelas. Se a seção
reta de uma estrela é πR2, onde R é o
raio da estrela, o no. mínimo de estrelas necessário para preencher toda a área
πr2, na hipótese de que nenhuma estrela fique atrás da outra, é:

onde consideramos como raio típico de uma estrela o
raio do Sol. A distância mínima r que
devemos atingir no Universo para acumular este no. de estrelas, na hipótese de
que nenhuma estrela fique atrás de outra é:
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onde A é a área do círculo de 1 pc de
raio e a densidade de estrelas n pode ser estimada como n=1/pc3.
Resulta então:

onde t0=13,7x109 anos é a
idade do Universo. Ou seja, para acumular 2x1015 estrelas, dentro de
um círculo de 1 pc de raio, precisaríamos poder observar muito além do
horizonte, que é a distância máxima que podemos observar no Universo,
correspondente a distância percorrida pela luz desde o Big Bang.
Obs.: A distância do horizonte corresponde ao raio do
Universo observável. Acredita-se que o Universo seja bem maior. Por exemplo,
num modelo de Universo com inflação, no instante ti=10-36s,
a distância do horizonte era dhor(ti)=cti=6x10-28m,
mas logo após a inflação, 10-34s depois, a distância do horizonte
ficou dhor(tf)=ctf=6x1016m=0.8 pc.
Se calcularmos a velocidade do horizonte, obtemos uma velocidade muitas ordens
de grandeza maior do que a velocidade da luz! Assim, a luz não teve tempo
de percorrer ainda todo o Universo, e vemos somente uma parte dele.
2) Em grandes escalas o Universo é isotrópico e
homogêneo.
Isotrópico => não há direção preferencial, todas
são equivalentes.
Homogêneo => não há lugar preferencial, todos são
equivalentes.
A diferença entre isotropia e homogeneidade é mostrada
na Fig. 2.3, do Livro de Bárbara Ryden.
Isso vale para distâncias a partir de 100Mpc (ordem
dos diâmetros de superaglomerados de galáxias e dos vazios observados entre os
aglomerados). Daí vem o Princípio Cosmológico: "Não há nada de especial
sobre a nossa localização no Universo. Ela é equivalente a qualquer
outra."
3) As galáxias têm redshift proporcional à sua
distância.

Obs.: Algumas poucas galáxias têm z < 0 (Grupo
Local) mas todas as demais têm z > 0. Descoberta: Vesto Slipher em 1912.
Lei de Hubble (1929):
Edwin Hubble, medindo a velocidade das galáxias
através do efeito Doppler da luz, descobriu que a velocidade das galáxias v=cz
(para v<<c) era proporcional à sua distância r:
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para z < 0.01, cz = v = H0r (Fig.2.4),
do livro de Bárbara Ryden, onde H0 é a constante de Hubble e vale
atualmente 72±3 km s-1 Mpc-1.
A Lei de Hubble, à primeira vista, sugere que estamos
num lugar privilegiado no Universo: todas as galáxias se afastam da nossa! Um
pouco mais de reflexão mostra que uma expansão isotrópica e homogênea produz a
mesma observação.
Matematicamente: sejam 3 galáxias 1, 2 e 3 separadas
por:
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formando um triângulo. Uma expansão homogênea e uniforme significa que a
forma do triângulo é preservada na expansão. Para mostrar a relação entre as
distâncias num tempo t0 em relação às distâncias num tempo t num
Universo em expansão fazemos:
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Sendo a(t) o fator de escala, que cresce com o tempo e
t0 é o tempo presente. Convencionou-se adotar para o tempo presente
a(t0) = 1, ou seja, expressamos o fator de escala de qualquer época em
unidades do fator de escala do tempo presente.Como o fator de escala cresce com
o tempo, e, quando olharmos para uma galáxia distante (na verdade, para
qualquer galáxia!), estamos olhando para o passado, quando o Universo era
menor, quando t<t0, a(t)<a(t0) e portanto
a(t)<1.
O fator de escala a(t) caracteriza a expansão
homogênea e isotrópica do Universo. Em qualquer tempo t, um observador na
galáxia 1 vai ver as outras galáxias se afastando com uma velocidade:



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onde:

ð
Lei de
Hubble:
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Se as galáxias estão se afastando no presente,
elas deviam estar mais próximas no passado. Na ausência de aceleração, podemos
obter o tempo em que elas estavam todas juntas, que é o tempo de Hubble :

O valor de t0 é 13,7±1.4 Ganos (Giga-anos ou 109
anos) que é o tempo em que as galáxias deveriam estar todas juntas. Esta observação
leva, naturalmente, a um modelo de um estado compacto inicial conhecido como
Big Bang.
Observamos que, consistentemente, 13,7 Gyr é
aproximadamente a idade dos objetos mais velhos do Universo. Entretanto, a
idade do Universo não é necessariamente igual ao tempo de Hubble. A atração da
gravidade produzida pela matéria deveria ter retardadado a expansão e o
Universo deveria ter se expandido mais rapidamente no passado e seria mais
jovem que H0-1. Por outro lado, hoje os astrônomos estão
concluindo que a densidade de energia no Universo é dominada pela constante
cosmológica que corresponde a uma força repulsiva, contrária à atração
gravitacional, e isto pode levar a uma idade do
Universo maior do que H0-1. O Modelo padrão,
baseado em observações atuais do Universo, sugere que a idade do Universo é
muito próxima a H0-1.
Distância de Hubble:
A distância de Hubble, dH é obtida fazendo,
na lei de Hubble, a velocidade ser igual à maior velocidade observável, que é a
velocidade da luz c:

Exercício: Calcular o
tempo e a distância de Hubble para H0 = 72±3 km
s-1 Mpc-1.
O tempo e a distância de Hubble são valores de
referência, que dão a idade e tamanho aproximado do horizonte do Universo.
Valores mais precisos dependem da história da expansão do Universo. Se a idade
do Universo é t0, a luz de galáxias mais distantes do que a
distância de Hubble não teve tempo de chegar até nós. Observações mostram que a
densidade de luminosidade do Universo é muito pequena: nL ~ 2x108Lsol Mpc-3
e equivale a uma lâmpada de 40 Watts para iluminar uma esfera de 1 UA de raio!
Exercício: Calcular o fluxo total recebido de todas as das
galáxias do Universo:
Solução:

Comparando com o fluxo que recebemos do Sol:

ou seja, 10 ordens de grandeza menor que o fluxo de
radiação que recebemos do Sol.
Exercício: Quanto maior/quanto mais velho teria que ser o
Universo para que todos os lugares recebessem a mesma iluminação que a Terra?
Resposta: Como fluxo resulta proporcional a dH,
esta teria que ser 1/(3×10-10)= 3,3×109 maior, ou seja, 3
bilhões de vezes maior e 3 bilhões de vezes mais velho (se as estrelas ficassem
brilhando todo o tempo).
Dentro do modelo do Big Bang, as propriedades do
Universo variam com o tempo (a densidade de matéria, por exemplo, que diminui
com o tempo).
Porém, nos anos 1950 - 1960, havia muitos defensores
do chamado Modelo do Estado Estacionário, que defendia o "Princípio
Cosmológico Perfeito" onde a densidade de matéria deveria permanecer
constante. Mas para isso seria necessário haver a criação de um átomo de
hidrogênio por km3 por ano.
Exercício: Se o Universo está se expandindo, isto significa que
os átomos, a Terra, o Sistema Solar e a Via Láctea estão ficando maiores?
Resposta (ver Raine & Tomas, an Introduction to Cosmology): Não! Estes objetos não se expandem porque são sistemas
ligados por forças internas elétricas ou gravitacionais. Por exemplo: seja o
potencial gravitacional da Via Láctea aproximado por:

onde MG é a massa da
galáxia e rG seu raio. A velocidade de escape vesc
de uma massa de prova m fica:

Mostre que, adotando MG=1011MSol e rG=50000 a.l.,
vesc=4×10-3c.
Podemos agora comparar esta velocidade com a velocidade de recessão da borda da
galáxia em relação ao seu centro devida à expansão do Universo:
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Mostre que este valor resulta v=3,7×10-6c, portanto 3 ordens de grandeza menor do
que a velocidade de escape. Isto significa que a força gravitacional da galáxia
domina sobre a expansão do Universo.
Exercício: Repita este cálculo para as galáxias dentro de um
aglomerado de galáxias (M~103MG e r~200rG) e
para os aglomerados de galáxias entre si (r~3×200rG), e descubra
qual é a escala de distância mínima em que podemos afirmar que a expansão do
Universo domina sobre a força de atração gravitacional.