Topologia e Transições de Fases
Uma das abordagens mais interessantes e formais para entender a
fenomenologia envolvendo a dinâmica e termodinâmica dos
vidros é o paradigma da superfície de energia
(landscape paradigm). A enorme quantidade de estados
metaestáveis característico dos sistemas formadores de
vidros implica que as funções de energia potencial
U(q_1,...,q_N) e energia livre F(m_1,...,m_N) destes sistemas
apresentem uma topografia complexa, com infinidade de mínimos locais e pontos de sela
com um número variável de direções
estáveis e instáveis. Podemos pensar nestas
funções como superfícies num espaço
multidimensional de N dimensões (o número de graus de
liberdade) apresentando uma topografia de cumes, vales e passagens
entre vales, de diferentes alturas e complexidade. Num sistema
clássico, é intuitivo imaginar que quanto menor a energia
total do sistema, mais confinada a dinâmica do mesmo
ficará numa região limitada do espaço de fases. Em
outras palavras, a estrutura
da superfície de energia potencial será determinante das
propriedades dinâmicas do sistema a energias baixas.
Estas idéias têm levado a resultados novos e
fundamentais sobre a origem da transição vítrea.
No entanto, uma proposta mais ousada, conhecida como Hipótese Topológica, baseada no contexto de uma geometrização da mecânica clássica, sugere que a estrutura topológica da superfície de energia potencial de um sistema físico pode nos dizer se este irá ou não apresentar uma transição de fases a alguma energia (temperatura) finita.
A hipótese, sustentada em alguns resultados rigorosos e alguns
exemplos particulares, indica que a evidência de uma
transição de fases poderia ser encontrada numa transição ou cambio na topologia de alguma função ou invariante topológico associado ao sistema, como por exemplo a Característica de Euler.
A característica de Euler é uma função do
número e complexidade (número de direções
estáveis) dos pontos estacionários da energia potencial,
e, desta forma, seu conhecimento é, de certa forma, uma medida
da complexidade do sistema considerado. A medida que variamos a energia
potencial, uma transição topológica aparece quando
o sistema passa por um ponto estacionário, nestes níveis
a topologia da superfície muda.
Nos últimos anos temos trabalhado na
caracterização topológica de alguns modelos
clássicos da física estatística, como o modelo
esférico de Berlin-Kac, com o inutuito de obter
informações para validar ou não a Hipótese
Topológica. Nossos resultados, junto com os de outros grupos,
indicam que, contrariamente ao suposto na hipótese original, a
topologia apenas não é suficiente para marcar uma
transição de fases. Apesar disto, a
caracterização topológica da energia de uma
sistema oferece informação fundamental sobre a
relação entre a complexidade da paisagem ou landscape e a
dinâmica do sistema e, por exemplo, a existência de
transições vítreas.
Alguns trabalhos nossos nessa área:
-
Topology and phase transitions: the case of the short range spherical model
S. Risau-Gusman, A. C. Ribeiro-Teixeira and D. A. Stariolo
J. Stat. Phys. 124, 1231-1253 (2006)
-
Topology, phase transitions and the spherical model
S. Risau-Gusman, A. C. Ribeiro-Teixeira and D. A. Stariolo
Phys. Rev. Lett. 95,
145702 (2005)
-
Quasi-stationary trajectories of the HMF model: a topological perspective
F. A. Tamarit, G. Maglione, D. A. Stariolo and C. Anteneodo
Phys. Rev. E 71,
036148 (2005)
-
The topological hypotesis on phase transitions: the simplest case
A. C. Ribeiro Teixeira and D. A. Stariolo
Phys. Rev. E 70,
16113 (2004)
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