Vidros estruturais e a transição vítrea
Vidros estruturais são os familiares "vidros de janela". O estado molecular num vidro é altamente frustrado, a frustração vem da impossibilidade que todas as particulas possam ocupar os mínimos da energia potencial de pares (estado de equilíbrio mecânico) simultaneamente , devido a presença de outras partículas próximas. Esta situação gera uma espécie de "desordem posicional ou geométrico". A temperaturas baixas a estrutura local de um vidro é semelhante a de um líquido, apenas ordem de curto alcance é evidente. Quando um líquido formador de vidro é resfriado a difusão das partículas diminui de forma dramática e na vizinhança da chamada "transição vítrea" a viscosidade cresce varias ordens de grandeza. A dinâmica lenta mantém o vidro num estado metaestável, em muitos aspectos semelhante ao comportamento dos vidros de spin, sistemas magnéticos frustrados e desordenados. Uma das características marcantes da dinâmica lenta em vidros, vidros de spin e outros sistemas é o denominado "aging" ou envelhecimento do sistema, que consiste na crescente dificuldade do sistema relaxar para o equilíbrio térmico a temperaturas baixas.
Importantes avanços têm sido dados na descrição teórica do estado vítreo nos últimos anos. Por uma parte a analogia de comportamento com os vidros de spin, para os quais importantes formalismos foram desenvolvidos nos anos 80, permitiu e permite obter importantes "insights" no comportamento dos vidros moleculares. Recentemente importantes avanços em técnicas experimentais, como a microscopia confocal, vêm permitindo estudar a dinâmica de partículas individuais, por exemplo em sistemas coloidais formadores de vidro, validando resultados teóricos e simulações computacionais.
Existe uma longa lista de questões relevantes ainda não resolvidas na física dos vidros, algumas das quais são:
A
estrutura molecular de um vidro apresenta alguma característica
diferente da de um líquido ? ou em outras palavras, existe
alguma ordem oculta no estado vítreo?
A
chamada "fase vítrea" é um estado de origem puramente
cinético, ou existe alguma transição de fase
subjacente ainda não bem caracterizada? É possível
que, a semelhança do que acontece num vidro de spin, alguma
ordem de longo alcance exótica se desenvolve quando um
líquido se transforma num vidro?
É
possível desenvolver uma descrição
termodinâmica da fase vítrea, conceitos do
equilíbrio termodinâmico são relevantes para
descrever o estado vítreo?
Nos últimos anos temos trabalhado em duas descrições possíveis, e populares, da fenomenologia vítrea, em grande parte em colaboração com o Prof. Gabriel Fabricius, da Universidad Nacional de La Plata, Argentina:
1- A influência da estrutura da superfície de energia potencial a medida que a temperatura desce, no aparecimento de dinâmica lenta e na caracterização da transição vítrea como uma transição topológica, e
2- A caracterização das chamadas "heterogeneidades dinâmicas" no regime de líquido súper-resfriado, ou domínios de partículas correlacionadas dinamicamente, que também é cotada como uma das marcas características do comportamente vítreo, devido a crescente cooperatividade molecular a medida que a temperatura decresce.
Alguns trabalhos publicados por nós nos últimos anos:
Fickian crossover and lengthscales from two-point functions in supercooled liquids
D. A. Stariolo and G. Fabricius,
J. Chem. Phys. 125, 64505 (2006)
Inherent structures dynamics in glasses: a comparative study
D. A. Stariolo, J. J. Arenzon and G. Fabricius, Physica A 340, 316-326
(2004)
Time correlation functions between inherent structures: a connection between landscape
topology and the dynamics of glassy systems
G. Fabricius and D. A. Stariolo, Physica A 331, 90-98
(2004)
The distance between Inherent Structures and the influence of saddles on approaching the mode
coupling transition in a simple glass former
G. Fabricius and
D. A. Stariolo, Phys. Rev. E 66, 031501 (2002)