UM ESTUDO SOBRE A EVOLUÇÃO DAS NOÇÕES DE ESTUDANTES SOBRE ESPAÇO, FORMA E FORÇA GRAVITACIONAL DO PLANETA TERRA.
(A study on the evolution of students’ notions about the earth’s space, shape, and gravitational force)


Roberto Nardi
Depto. de Educação - Faculdade de Ciências
Universidade Estadual Paulista - UNESP
Campus de Bauru - São Paulo - Brasil (1)

Anna Maria Pessoa de Carvalho
Faculdade de Educação
Universidade de São Paulo - São Paulo - Brasil

Resumo

O presente artigo procura mostrar a evolução das noções de estudantes sobre espaço, forma e força gravitacional do planeta Terra, obtidas a partir de um estudo psicogenético anteriormente realizado sobre as idéias que evoluem para a noção de campo de força (NARDI, 1990). A análise das entrevistas clínicas, realizadas numa amostra de 45 sujeitos escolhidos aleatoriamente entre estudantes de 1o. e 2o. graus de São Paulo, Brasil, permitiu também comparar os dados obtidos com os trabalhos realizados por NUSSBAUM e NOVICK (1979) e apontar algumas sugestões a serem consideradas na construção de atividades de ensino sobre o tema.
Palavras-chaves
: noções de estudantes; espaço, forma e força gravitacional da Terra.


Abstract

This paper tries to show the evolution of students’ notions about the earth’s space, shape and gravitational force, obtained from a psichogenetic study previously carried out concerning the ideas which evolve to the notion of field of force (NARDI, 1990). The clinical interviews conducted with 45 secondary and high school students from São Paulo, Brazil, allow also a comparison between the data obtained and those reported by NUSSBAUM and NOVICK (1979), in order to suggest some aspects to be taken into consideration in the design of classroom activities about this subject.
Key-words
: students’ notions; earth’s space, shape and gravitational force.


1. Introdução

Na última década, pôde-se observar entre os pesquisadores em Ensino de Ciências grande empenho em estudar mais profundamente as idéias ou noções que os alunos possuem antes do ensino.

Os trabalhos de DORAN (1972), VIENNOT (1979), DRIVER (1981), WATTS e ZYLBERSTAJN (1981) foram algumas das primeiras pesquisas nesse sentido e chamaram tais noções de "conceitos espontâneos", "intuitivos", "formas espontâneas de raciocínio" e outras denominações semelhantes.

Muitos dos pesquisadores passaram a estudar os resultados dessas pesquisas, não só no intuito de aplicá-las a situações de ensino, mas também à procura de um referencial teórico em que se respaldar. Como exemplo podemos citar os trabalhos de NUSSBAUM e NOVICK (1979), DRIVER e ERICKSON (1983), HEWSON e HEWSON(1984). Ao mesmo tempo, começaram a aparecer tentativas de aplicação desses resultados ao ensino. POSNER (1983), HEWSON (1983) GIL e CARRASCOSA (1985) e HASHWEH (1986) foram alguns dos pesquisadores que apresentaram idéias no sentido de transformar os chamados "conceitos espontâneos" em "conceitos científicos", a partir de uma "mudança conceitual". Alguns dos estudos como os de TOMASINI (1982) apresentaram inclusive exemplos de estratégias de ensino a partir de representações mentais dos estudantes. A partir destes trabalhos, inúmeros outros foram desenvolvidos, muitos deles catalogados por PFUNDT e DUIT (1988).

Esses pesquisadores têm estudado as noções dos alunos a partir de uma visão construtivista, em que a ênfase é dada ao papel do aluno como construtor de seu próprio conhecimento. Ao adotar esse enfoque construtivista, uma parte desses pesquisadores vê nos estudos epistemológicos de Piaget e seus colaboradores algumas das respostas ao problema da construção do conhecimento científico, adotando a teoria piagetiana como fonte de referência. Os trabalhos de FURTH e WACHS (1974), CHIAPETTA (1976), HALBAWCHS (1979), AIELLO-NICOSIA (1980), GARCIA (1982), SARAIVA (1986), COLL (1987) e CASTORINA (1988), por exemplo, mostram a relevância das idéias de Piaget para se entender o fenômeno da aprendizagem.

Dentro desse quadro teórico, uma série de pesquisas envolvendo o ensino e/ou a aprendizagem de conceitos científicos foram desenvolvidas por pesquisadores ligados ao Grupo de Ensino de Ciências da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Estes estudos mostram, por exemplo, como ocorre nos sujeitos o desenvolvimento do conceito de velocidade e relacionam alguns fatores que estariam associados a sua evolução (TEIXEIRA, 1985). LABURU (1987), ao estudar o desenvolvimento e aprendizagem do conceito de aceleração, procurou investigar quais as noções que os alunos apresentavam e sua relação com o desenvolvimento cognitivo. Na mesma linha, CARVALHO (1986) estudou o conceito de quantidade de movimento e sua conservação. VALLE (1989), SILVA (1989), TRIVELATO (1989) e NARDI (1990) concluíram estudos psicogenéticos sobre os conceitos de centro de massa, velocidade angular, conservação e modelo corpuscular e campo de força respectivamente.

Este artigo procura mostrar as noções dos estudantes de uma amostra de 45 estudantes de 1o. e 2o. graus de São Paulo, Brasil, sobre aspectos como espaço, forma, e campo gravitacional do planeta Terra, obtidas através de entrevistas clínicas realizadas no estudo psicogenético sobre as idéias que evoluem para a noção de campo de força acima citado. Ao mostrar a evolução destas com a idade e apresentar uma comparação entre os dados obtidos e aqueles apontados por NUSSBAUM e NOVICK (1979), o artigo aponta também algumas sugestões a serem consideradas na construção de atividades de ensino sobre o tema.

2. A pesquisa

Na pesquisa sobre as idéias que evoluem para a noção de campo (NARDI, 1990), da qual este trabalho origina-se, analisou-se numa amostra de 45 indivíduos escolhidos aleatoriamente entre estudantes de 6 a 17 anos de idade, como evoluem suas noções com o decorrer da idade, ou seja, como os alunos constroem as principais características ou propriedades da noção de campo de força.

O instrumento de pesquisa utilizado foi a entrevista clínica, através do método clínico ou método da exploração crítica, do tipo empregado por Piaget e seus colaboradores nos estudos do desenvolvimento cognitivo da criança. Estas entrevistas, de duração média de 30 minutos, foram gravadas em videotape e foram desencadeadas a partir de quatro experimentos básicos que foram selecionados levando em consideração aspectos do campo magnético, do campo elétrico e do campo gravitacional. Esses experimentos utilizados eram constituídos de materiais simples como ímãs e objetos metálicos (1a. situação), ímãs com limalha de ferro (2a. situação), pêndulo elétrico (3a. situação) e um diapositivo onde se mostrava um astronauta no espaço (4a. situação).

Os dados obtidos na parte das entrevistas realizadas através da quarta situação desencadeadora - que se iniciava com o questionamento a partir do diapositivo mostrando um astronauta no espaço, geraram este estudo da evolução das diferentes noções dos estudantes sobre espaço, forma e força gravitacional do planeta Terra.

2.1. A Amostra

A amostra foi constituída de 45 sujeitos, todos alunos da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, escolhidos aleatoriamente, por sorteio, com as seguintes características:

- Com relação ao sexo:

- Nacionalidade:

- Idade:

- Com relação à repetência escolar:

2.2. As situações desencadeadoras das entrevistas

A seqüência de questões que norteia o protocolo da entrevista teve como objetivo principal analisar o conceito de campo de força visando verificar como o aluno constrói as principais características ou propriedades do conceito, ou melhor, como estas idéias evoluem com a idade.

Na parte específica da entrevista onde o conceito de campo gravitacional era questionado, e de onde apareceram as noções dos estudantes apresentadas no presente estudo, a entrevista se iniciava da seguinte forma: um diapositivo onde aparece um astronauta no espaço próximo a uma nave espacial (Fig 1) era mostrado ao sujeito.

Fig..1: Reprodução do diapositivo utilizado na situação desencadeadora sobre o campo gravitacional terrestre.

A seguir solicitava-se ao sujeito para descrever a cena (a resposta geralmente dada era: - "Vejo um astronauta flutuando no espaço."). A partir da resposta dada desencadeava-se a entrevista, como por exemplo, com a questão: - Por que o astronauta está flutuando? (ou: - Ele não cai? Por que?)

A seqüência do questionamento seguia conforme o protocolo original, visando verificar se os sujeitos reconheciam as propriedades do conceito de campo de força. Entretanto, ao citar o planeta Terra, o entrevistador fornecia um lápis e papel em branco e solicitava para que o sujeito, além de descrever como achava ser o planeta, elaborasse um desenho do mesmo. A partir do desenho outras questões eram formuladas, como por exemplo: - Onde nós estamos neste desenho? - E o astronauta? - E as nuvens? - Se o astronauta soltar uma pedra de suas mãos, o que acontece? etc.

Desse questionamento, portanto, surgiram os dados apresentados neste estudo: as noções dos sujeitos da amostra sobre aspectos sobre a Terra como: espaço, forma, campo gravitacional e outros.

3. Os dados da Amostra

Pudemos classificar as noções dos sujeitos em quatro tipos principais e as ordenamos numa seqüência que consideramos a partir da menos elaborada (noção 1) para a mais elaborada cientificamente (noção 4). A seqüência abaixo, mostra os desenhos dos sujeitos em cada uma dessas noções.

Fig. 2: Cópias dos desenhos (reprodução reduzida) de GUI (7:10), UBI (8:11) e REG (7:1), nesta seqüência

Fig. 3: Cópias dos Desenhos (reprodução reduzida) dos sujeitos da amostra que apresentam a "noção 2" sobre o planeta Terra.

Fig.4: Os desenhos de FEL (7:8) e DEB(9:3).

Fig. 5: Os desenhos de ANA(10:8) e ADR (16:6)

A figura abaixo resume, através de desenhos representativos de cada um dos principais grupos, as noções sobre o espaço, a forma e força gravitacional do planeta Terra entre os sujeitos da amostra:

Fig. 6: Seqüência que mostra os desenhos (cópias reduzidas) dos quatro modelos principais representativos das noções apresentadas pelos sujeitos da amostra, classificando-as da menos (noção 1) para a mais elaborada conceitualmente (noção 4).

A tabela I mostra como se apresenta com a idade as noções apresentadas pelos sujeitos da amostra.

TABELA I - As noções apresentadas pelos sujeitos da amostra segundo os níveis definidos conforme a seqüência mostrada na Figura 6.

4. Análise dos dados

Os dados coletados através das 45 entrevistas da amostra, embora dentro de um contexto mais amplo, onde se pretendia verificar a noção de campo de força nos sujeitos, foram suficientes para construir a evolução das noções que estes mostraram ter o espaço, forma e força gravitational do planeta Terra, evidenciadas não só nos diálogos das entrevistas, como também graficamente, através dos desenhos que lhes foi solicitado efetuar.

Evidentemente que o/a docente que conheça os resultados acima descritos deve conduzir seu ensino de maneira diferenciada. Para isto, a questão que se apresenta é a seguinte: que cuidados ele(a) deve ter ao elaborar atividades de ensino que visem levar o aluno a atingir noções mais elaboradas? Da análise da tabela I (representando evidentemente mais do que simplesmente os desenhos elaborados pelos sujeitos, ou seja, uma síntese das entrevistas) emerge uma série de sugestões para a construção de atividades de ensino que envolvam as noções sobre a Terra em questão. Por exemplo: na faixa etária entre seis e oito anos de idade, ou seja, no nível de explicações menos elaboradas, as noções sobre a forma da Terra dos sujeitos são do tipo plana. Embora alguns sujeitos da amostra já possuam noções um pouco mais elaboradas, mesmo assim, estes não entendem que os objetos são atraídos para o centro da Terra. O emprego de termos como gravidade, força gravitacional ou campo gravitacional a estudantes desta faixa etária pode ser bastante improdutivo. Observa-se que, mesmo que estudantes desta faixa etária empreguem estes termos, não conseguem entender claramente seu significado. Uma idéia para a construção de atividades de ensino neste caso seria iniciar com a apresentação de analogias que mostrem a necessidade de uma fonte geradora para que os corpos sejam atraídos.

Por sua vez, os sujeitos que apresentaram a noção 2, parecem estar numa fase de transição, ou seja, embora reconheçam a esfericidade dos planetas, não lhes admitem a atração gravitacional e sim a presença de um chão imaginário, fora e abaixo do planeta. Só por volta dos onze anos de idade os sujeitos parecem entender com clareza a necessidade de um campo gravitacional.

A evolução que se percebe da noção 2 para a 3 - se assim pudermos chamar a diferença entre essas noções - é que os sujeitos que apresentam a noção 3 colocam o chão dentro do próprio planeta, uma vez que a Terra geralmente é considerada oca. É comum os sujeitos desta faixa etária (e mesmo os que apresentam a noção 4), admitirem, por exemplo, que na Lua não há força gravitacional porque lá não há atmosfera.

Já os sujeitos que apresentam as noções mais elaboradas da amostra, iniciando por volta de onze anos de idade, embora entendam que os corpos são atraídos na direção do centro da Terra, muitas vezes apresentam um limite para a ação à distância. Tal limite, geralmente coincide com o fim da atmosfera. É importante nesta faixa etária, portanto, mostrar ao estudante situações onde a força diminiui gradativamente com a distância, como por exemplo no caso de ímãs. Interessante é observar a semelhança entre esta noção e a idéia de Orbis Virtutis mostrado em De Magnete escrito pelo inglês William Gilbert em 1600 (GILBERT, 1958).(Figura 7). Esta semelhança sugere o uso de aspectos da História da Ciência na construção das atividades de ensino.

Figura 7: A semelhança entre a noção de sujeitos da amostra, como (FER, 12:3), e a Orbis Virtutis de William Gilbert (Fonte: Gilbert, 1958, p.122)

As constatações acima citadas nos pareceram significativas não só pela importância que entendemos ter para o ensino da concepção científica considerada correta, mas também pela surpreendente semelhança que posteriormente pudemos verificar entre estes dados e os obtidos por NUSSBAUM e NOVICK (1979), MALI e HOWE (1979), e NUSSBAUM e SHARONI-DAGAN (1983).

Ao estudar o desenvolvimento dos conceitos de gravidade e Terra entre crianças do Nepal, MALI e HOWE (1979) concluíram que as noções apresentadas por essas crianças eram similares às apresentadas por crianças americanas e israelenses estudadas por NUSSBAUM e NOVIK (1979). Nossos resultados apresentaram também bastante semelhança aos obtidos nos estudos acima citados. NUSSBAUM e NOVICK (1979) resume as várias noções das crianças sobre a Terra neste quadro:

       noção 1                    noção 2                 noção 3           noção 4                noção 5

visão mais egocêntrica    ----------------------------------------------      visão mais conceitual

Fig. 7: Várias noções sobre a Terra apresentadas por crianças israelenses (fonte: NUSSBAUM e NOVICK, 1979, p.83)

A similaridade desses resultados com os nossos, além de reforçar a importância de se levar em consideração esses dados para a construção do ensino da noção de diversos aspectos sobre o planeta Terra, mostra a confiabilidade que podemos ter na metodologia de pesquisa empregada neste estudo.

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Notas:

(1): Apoio: CAPES/FUNDUNESP

(2) Os números entre parênteses indicam a idade do sujeito em anos e meses respectivamente. Por exemplo: (6:8) representa um sujeito de seis anos e oito meses de idade.

Recebido em 26.01.95
Aceito em 18.04.96

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   IENCI@IF.UFRGS.BR  

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